quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Uma primeira página abortada


Eu nasci bonito. Nas poucas fotos que mamãe conserva daqueles tempos de berço com véu protetor em volta, eu apareço com toda minha silenciosa presença simétrica no centro do plano. Olhos calmos fitando a câmera mambembe do alto da qual deveria sair o passarinho anunciado pelo fotógrafo. Minha harmonia de proporções era tamanha que esse meu bom comportamento provocava a interpretação de que eu trazia algum prenúncio não revelado, alguma punição não passível mais de ser adiada. As pessoas me olhavam uma vez e evitavam fazê-lo de novo, incomodadas com a verdade inacessível estampada na aberração da minha beleza.        

     Minha mãe foi quem mais sofrera com isso. Abandonada pelo homem que a havia embuchado, como ela insistia sempre em dizer, ela que tinha que suportar sem nenhum lenitivo o peso dessa realidade. De primeiro, sua astúcia de menina rejeitada a fazia simular toda espécie de doenças para que não tivesse que me amamentar. Esfregava alho com urtiga nos sovacos e arnica-do-campo nos mamilos, dormia calçada com meias apertando os pés cujos dedos entremeava com pedaços de folhas de coroa-de-cristo, de forma que a febre resultante dos eczemas a fizesse ter delírios, o que convencia por certo tempo que haveria algo de perigoso conceder-me à proteção de uma criatura de saúde tão instável. O pai de minha mãe_ que vivia em um isolamento totêmico em que raras as vezes se tinha a audácia de invoca-lo para assuntos comezinhos_ mandou baixar até a casa uma ama-de-leite. A mulher não chegava aos 15 anos mas tinha aquele olhar duro resultante da completa adaptação às atribulações naturais que a fazia intocada à maledicência cotidiana, e que estendeu-me seus seios por algum tempo, pelo tempo suficiente para que em minha mãe despertasse o instinto materno que antes recusava, depois que ela viu a inevitável correlação de santidade entre dois seres angélicos, um sentado em serena entrega no leito e outro em um sono saciado no centro dos seus braços. Reivindicou com a mesma obstinação furiosa de antes que seu rebento lhe fosse devolvido. Por uma semana minha mãe sustentou a farsa de que admitia com o coração ponderado que eu era um bebê normal, cantando cantigas de ninar para embalar meus sonos, estendendo-me com fartura o bico de seus peitos não mais salpicados de feridas de arnica, ainda que fizesse de tudo para que seus olhos não confrontassem com os meus que, impreterivelmente nessas ocasiões, se fincavam nos dela com infinita malícia. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Inteligência

O maior benfeitor humanista da minha cidade não é o presidente da OAB, nem o padre ou o pastor, nem o pessoal do sindicato ou os dois artistas plásticos, nem os dois acadêmicos com títulos de doutorado. O maior humanista que vem contribuindo, solitariamente, para a melhora das condições sociais é o dono de um pequeno armazém que, apesar de pequeno, vive lotado de consumidores. Esse senhor trabalha da seguinte forma: sua margem de lucro é mínima, devido aos preços dos produtos serem bastante reduzidos; ele não explora seus trabalhadores, abrindo pontualmente às 8 horas da manhã e fechando pontualmente às seis e meia da tarde (ele fecha os portões corrediços para avisar os clientes que é hora de ir embora). Em seu armazém tem de tudo, mas de tudo mesmo, o que não tem nos outros mais sofisticados: tem desde macarrão furadinho do pacote azul de 5 quilos, até o vinho do Porto e chocolates alemães. Seus preços são absurdamente mais baratos que nos concorrentes, de forma que os outros admitem que não são concorrentes, não tem como se firmarem nessa categoria. Os produtos são cerca de 20 a 30% mais baratos. Achei meu vinho do Porto lá, uma vez, 25% mais barato, e desde então o dono vem encomendando mais Porto. Por incrível que pareça, ontem o Porto estava ainda mais barato. Parece absurdo, impraticável, financeiramente um suicídio, mas ele já está rico com isso. Não há uma hora em que eu vá lá que o espaço não esteja abarrotado de gente com os carrinhos cheios. Em contrapartida, o maior supermercado da cidade está já com o decreto de falência assinado: recebeu uma multa trabalhista de 700 mil reais por exploração de seus trabalhadores e não lhes pagar as brutais horas extras, e seus preços exorbitantes o torna ainda mais fadado ao fracasso. A realidade desse supermercado é a realidade corrente em minha cidade, com funcionários ganhando abaixo do salário mínimo e trabalhando 12 horas por dia_ no horário de verão fica pior, porque eles abrem ainda mais cedo e saem ainda mais tarde. É isso: não é necessário bondade e altruísmo para o brasileiro, mas inteligência. Com inteligência se fica rico, é uma mera questão matemática e, como adendo, as consequências para a dignidade humana e a diminuição da desigualdade social sempre vem.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sir Richard Francis Burton, uma biografia



Agradeço ao Paulo Raviere pela indicação desta fantástica biografia. Sir Richard Francis Burton é uma personagem menos interessante que T. E. Lawrence (e muito menos genial em seus conflitos interiores), mas o autor, Edward Rice, transforma o livro em um deleite raro ao mostrar com claro detalhismo as circunstâncias históricas e ambientais do seu herói. A segunda melhor biografia que eu li _ ainda perde para a magnífica de Darwin, da dupla Desmond & Moore. Quando me deparo com um livro tão envolvente, sempre me lembro do Paulo Francis dizendo "drogas para quê?". Segue um trecho memorável (o livro como murro na cara para nos mostrar sempre que existe muito, muito mais além de nossos umbigos):

"E havia também o costume de urinar que Burton tinha de seguir de maneira ainda mais automática. Os muçulmanos, como a maioria dos ocidentais, urinam acocorados e, quando terminam, enxugam o pênis com uma pedra ou um, três ou cinco bocados de terra ou argila, dependendo do costume local. Existe uma história que já foi várias vezes repetida: na viagem a Meca, viram Burton distraído, atendendo ao apelo da natureza de maneira não-muçulmana, urinando de pé, na posição ocidental; para salvar a vida, ele teve de matar a pessoa que o viu; é uma lenda que ele tentou desmentir, apontando a dificuldade de urinar de pé com aquelas roupas árabes que estorvavam os movimentos. Mas não há dúvida de que Burton tinha a fama de ter matado um homem a sangue-frio; no entanto, seu detrator Stanley Lane-Poole gostava de comentar que Burton "admitiu um tanto constrangido que nunca matou ninguém em momento algum". (tradução de Denise Bottmann)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Leniência



Eu estava comendo um damasco seco quando meu dente incisivo, naqueles silêncios de pesadelo que mostram um terror irreparável, se partiu ao meio. A língua e a gengiva emitiram o sinal de alarme de que alguma coisa estava seriamente errada no preciso processo da mastigação, e a língua, em uma mecânica automática, se me estica boca afora e entrega o objeto estranho em minhas mãos. O olho com o reconhecimento paulatino da miséria que é a condição humana, em seu realismo mais restrito, e sinto uma infelicidade por todo meu ser: uma desproteção antropológica que há muito tempo não sentia. Fico com o pedaço amarelecido na mão, e nada é mais feio que um dente partido, mais denegridor, mais excludente. Percebo que em toda minha vida eu fui massacrado por terrores na solidão da noite em me ver sem dentes, em sonhar que meus dentes se deslocavam, caíam, esfarinhavam como um giz que aparecia de súbito ser impossível se manter em minha boca. Lembro de todas as peripécias de minha mãe em me levar, naquela época de severas privações financeiras, a inúmeros enchumbadores de dentes. Cada um se conserva em minha memória como uma entidade única: o homem com cara de criminoso, de jaleco sujo, de barba por fazer e com um azedume lacônico contra o mundo que me apavorava. Seja qual aspecto espúrio essa entidade possuía, era ela que erigia aquelas lápides cinzas da amálgama por sobre o túmulo em que sepultavam a dor em minhas gengivas, e me trazia alívio. Daí me recordo qual foi a última vez em que senti esse desolamento profundo: foi justamente quando esse mesmo dente se partira há quase 25 anos. Eu era um jovem magricela, meio sem rumo na vida, fazendo faculdade mas completamente desmotivado com tudo. E em uma bela manhã, no pátio da universidade, o dente se parte e minha língua faz sua primeira entrega policialesca daquele fragmento rejeitado para minha mão. Eu tinha 18 anos, ou 19, e aquele dente da frente quebrado, no auge da minha vaidade, me fez sentir ainda mais minha condição de segregado. Eu sabia que minha mãe não teria dinheiro para um dentista. Eu sabia que não estava preparado para viver com aquele novo sinal de pobreza em mim, tão violentamente evidente. Eu saí do pátio, peguei um ônibus e desci perto de casa. Não abria a boca, mas não conseguia parar de raspar a lâmina que sobrara do dente com a língua. Só para ver quanto ficaria uma reparação, entrei em um consultório que só então descobrira próximo de casa. Sabia que seria um preço impossível para minha mãe pagar, porque era um consultório de verdade, com um dentista de verdade, e não um enchumbador clandestino. A dentista, uma mulher jovial de cabelos negros _ que me causava ainda mais vergonha pela deformação na boca_, examina o problema, me encaminha para sua secretária para que esta faça o orçamento, e antes que a secretária complete os números das possíveis parcelas e sobre o desconto no caso de um pagamento à vista, eu me despeço dizendo que não daria, estava sem dinheiro. Quando estava para atravessar a rua, a própria dentista me chama: "Vem cá, vamos ver o que podemos fazer". Talvez foi a primeira vez em minha vida que uma concessão assim estava prestes a acontecer; talvez ela orquestrava um desconto; talvez ela ofereceria um trabalho panorâmico de restauração de outras pequenas falhas que havia visto em meus outros dentes; talvez iria dar de brinde um tratamento de flúor: eu me sentei de novo na cadeira inclinável e me encolhi de vergonha diante ao que parecia ter que dizer mais uma vez, após toda a exposição, de que não haveria meios para isso. Para meu assombro ela começa a mexer em meu incisivo. Leva uma meia hora ou mais, e conclui dizendo: "Ficou tão perfeito que eu poderia assinar aqui embaixo". (Lembro-me claramente dessa frase, e um quarto de século depois as surpresas da memória evocam o timbre maroto de sua voz, uma certa estridência que o rapaz que eu era então associava a algo da classe abastada, de filhas criadas em paz com uma efetiva margem de carinho paterno, de cultura, de uma bondade perigosa diante a qual eu sempre me sentia perigoso, com a qual uma brutalidade indisfarçável da minha parte iria trair-se revelando para o choque de um coração tão bem moldado que eu não estava apto a suportar tamanha leniência.) Eu já sabia, mas tinha que perguntar, e a pergunta me tornava ainda mais tremulamente miserável: "quanto foi?". Ela sorriu com todo cuidado, de modo a que passava longe de qualquer possibilidade de me ofender, e me disse que não era nada, era de graça. Fez isso sem ostentação. Eu agradeci, sem efusividade, e ela me disse: "olha, só vai durar 10 anos, depois você terá que refazer". E há duas semanas, com a lasca que ela tão bem colocara em meu dente que nem eu mesmo me lembrava que era uma restauração, grudada em um pedaço de damasco, finalmente vencera o prazo de duração. Fiz a restauração em um dentista daqui da minha cidade, caro, pra lá de caro_ imagino quanto seria naquele tempo em que a odontologia era ainda mais exclusiva. Indigno-me comigo por ter passado todos esses 25 anos sem me lembrar disso, sem pensar na dentista, sem sequer me lembrar do nome dela. Há muitas questões aí: o fato de que eu me sinto cada vez mais combalido e reservado com toda impressão de completude pessoal, cada vez em que envelheço mais. O medo que eu sentia naquele labirinto da juventude. Mas não foi ingratidão. É forte a tentação de tecer a frase "em um mundo cheio de ira e egoísmo..."; mas não é assim. O mundo é cheio de medo e incomunicabilidade, de tal forma que a bondade aparece no esforço de se afirmar-se a cabeça para fora do invólucro como uma leniência, uma tentativa sempre mal ajambrada, sempre suspeita, sempre titubeante. Assim me parecera aos 18 anos, mas não mais agora. Agora apenas me parece que até a validade que ela colocou em seu ato totalmente despojado e sem motivos práticos a não ser o de tornar mais fácil a vida de um jovem que ela via em todas suas fragilidades, estava investida de modéstia. Durou quase 25 anos, doutora.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Quermesse dos psicopatas



Uma das vergonhas maiores da indigente realidade brasileira atual é que alguns dos formadores de opinião com mais seguidores por essas excrescências virtuais são oriundos do meio do rock. Temos Lobão, temos Tico não sei o quê, e, pelo que descobri ontem, temos um guitarrista de uma falida e obscura banda de metal que, assim como seus páreos, adotou o hobby de vaticinar suas iras "políticas" em um canal do youtube. Conhecedor que sou que esse país é um circo desnecessário e anacronicamente sempre fanático pelo atraso, retive minha capacidade de espanto ao ver que tal sujeito tem "500 mil seguidores no Facebook". Respeito o impacto dessas cifras, embora tal coisa me pareça incorrigivelmente insignificante. Pois bem, incorri na curiosidade de tentar assistir a um vídeo desse astro cibernético ontem, em que o futuro presidente dessa pocilga, conhecido por Jair Bolsonaro (o Brasil requerendo garbosamente seu papel de destaque nos livros de história desse século XXI, predito a ser mais violento e bestial que o século passado, avoé!), lhe concede uma entrevista. O guitarrista falido, um tipo branco, barbudo, com os cabelos tratados indo até a cintura (uma das perguntas recorrentes nos comentários: que shampoo você usa?), começa com uma longa parlenga sobre deus, Cristo, afirmando que esses são as presenças mais importantes e capitais em sua vida. E daí ele pergunta o que Deus representa na visão do presidente antecipadamente eleito Jair Bolsonaro. Daí por diante, eu paro de assistir_ assisti 5 dos 75 minutos que tem o programa. Não aguento; além das minhas forças. Antes de desligar vejo o primeiro comentário com um fio de esperança. Um questionamento educado e inusitadamente inteligente de que a política e as questões sociais não deveriam passar pelo crivo da crendice religiosa. Um comentário bem posto e bem escrito de uma moça. O sujeito, depois de falar de Cristo e Deus, o que responde? Umas 6 linhas de fúria descomedida que se encerram chamando a moça de "vagabunda". Eu acredito que Bolsonaro ganhará a presidência daqui a 2 anos. Tirem aí as conclusões.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Enclausurado



Enfim, Ian McEwan escreveu sua obra-prima. Enclausurado é genial do começo ao fim. McEwan foge do clichê e da tendência a transformar o romance em séries televisivas de comédia de erros, como vem fazendo em seus últimos trabalhos, e compõe um livro original, instigante, altamente inteligente, belíssimo, cheio de páginas sublimes em que os problemas da modernidade entram nelas com uma legitimidade profunda, e, além disso, engraçado e terno. As últimas três páginas estão entre as coisas mais lindas e emocionantes que eu já li. Confesso que nunca levei McEwan muito a sério, apenas um entretenimento superior; mas com essa obra, ele entra para a galeria dos grandes. Não adianta falar aqui para pessoas que ainda não leram Enclausurado. Minha recomendação é que o leem o mais rápido possível. Façam esse favor ao deslumbramento. (Ouso dizer que com esse romance, McEwan alcançou o patamar de um Dostoiévski: é, de longe, a melhor coisa que ele já escreveu, e a melhor coisa surgida em inglês nos últimos anos.)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Diários II, de Susan Sontag



Susan Sontag deve ter sido uma companhia maravilhosa. A felicidade que ela tinha pelas ideias e pela arte, sua total e absoluta dedicação ao pensamento, não deve ter passado batido para sua simpatia pessoal. Em tudo o que ela escreveu tem espírito. Em cada um de seus magistrais ensaios há êxtase, contemplação, engajamento, sinceridade, profundidade e leveza. Ela transformava os assuntos mais descansados e intranscedentes em uma revolução contra os conceitos instituídos. Foi graças a ela que coisas que antes eram tidas como lixo ou temas que não eram de bom tom mencioná-los, passou a serem vistos como alta cultura, como expressão artística relevante. Graças a Sontag vários escritores importantes, mas que estavam afundados em seus esquecimentos étnicos, foram trazidos para o centro da mídia cultural mundial. Ela destrinchou vários artistas obscuros; uma menção dela fazia com que esses criadores se tornassem notícia e alvos de uma irrestrita atenção. Mais ou menos o que Borges fez com vários autores esquecidos. A Companhia das Letras presenteia o leitor brasileiro neste final de ano com o segundo volume de seus deliciosos e imprescindíveis diários. Neles se vê, ainda mais que em seus ensaios, o quanto Sontag era uma energia comburente inesgotável. Feitos de fragmentos pequenos de textos e anotações soltas mas regradas, esses diários são uma fonte valiosa sobre as ideias, a fé imbatível na escrita e na literatura, e o rico cotidiano da autora com seus encontros com escritores e artistas de todos os nichos. É simplesmente uma delícia lê-los. Este segundo volume é mais generoso: tem 580 páginas, 250 mais que o primeiro. Sontag era inesgotável em ideias: aqui há enredos de romances, silogismos sobre todos os assuntos, listas de seus melhores livros, cronologias sobre seus projetos, segredos, conversas secretas. E em tudo, como eu disse, há espírito. É uma festa!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Lendo Hermann Broch



Estou lendo "A morte de Virgílio", de Hermann Broch. Os escritores em alemão tem algo muito idiossincrático, que os tornam bastante distintos das outras literaturas. Eles acreditam profundamente que a literatura é algo sagrado, algo que possibilita que eles entrem em contato com Deus. Mesmo não acreditando em Deus, mesmo sendo avessos a toda ideia de espiritualidade, não há outros escritores que empreguem tanta espiritualidade na forma como escrevem como os da literatura em língua alemã. Eles não são estetas da palavra concisa como alguns russos, que também são escritores divinatórios; eles, pelo contrário, são palavrosos, cerebrais, olímpicos, pretensiosos ao extremo, brutalmente seguros da importância de seus papéis em manejarem algo tão poderoso e aristocrático quanto a escrita. Quando Grass ganhou o Nobel, me recordo de um crítico nacional dizendo que um escritor brasileiro jamais ganharia o prêmio porque este não se leva a sério. Os que escrevem em alemão não tem medo de ficarem loucos, de se tornarem mendigos (Musil assume quase essas duas realidades), de serem odiados, de serem perseguidos. A escrita é o templo deles, é o que lhes basta. E todos eles passam isso para o leitor, essa autarquia estética e ética, essa felicidade que é a maior de todas as felicidades, essa Missão. É assim que me deleito com esse romance de Broch, aceitando o convite. Enquanto o leio_ a mesma sensação de quando leio Mann, Musil e Grass_ sinto que nada mais importa, a não ser a sua leitura. É uma leitura tão inexoravelmente elevada que fico esses dias em um estado de imolação extraterrena, a mesma coisa que eu sentia quando me submergi em "O homem sem qualidades" ("Você está me chamando para me preocupar com isso? Sabe, por acaso, que eu estou lendo Musil?")

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Um duelo



Vi o especial da Globo News sobre Bob Dylan. O mais legal foi ver Paulo Henriques Britto falando que Tarântula, o livrinho de variações despirocadas do Dylan que ele traduziu nos anos 80, é o que é, um livrinho de variações despirocadas, e que se fossem procurar a relevância literária teriam que ir nas letras. O repórter pediu que ele lesse um trecho de sua tradução, e o Paulo, muito senhor de si, leu algo que ele sabia que iria soar como uma capa de caderno rabiscada de um colegial. Quando da repercussão do Nobel, haviam 4 Tarântulas na Estante Virtual. Custavam acima de 100 reais, e uma outra acima de 200. Mas havia uma que custava 49 reais. Como nesses filmes em que muitos consumidores enlouquecidos se veem parados diante uma gôndola de supermercado com um só produto em promoção que sobrou da devassa, eu corri para efetuar o login e comprar o livro. O livro caiu no carrinho, mas, quando fui concluir a compra, a coisa travava. A página caía em um fundo em que se dizia "não foi possível acessar essa página". Eu vi claramente o livreiro ensandecido do outro lado tentando com todas as forças fazer com que eu não efetivasse a compra, para que voltasse com o livro super-valorizado. Ficamos nisso por horas, eu voltava à página e o volume continuava em meu carrinho, mas não conseguia comprar. Jantei, tomei meu vinho, brinquei com a patota ouvindo Bob Dylan, e de ora em ora ia lá brigar com o vendedor, puxando com um supetão a beirada do livro que me cabia. Fiquei com o note ligado a noite inteira, com a página na Estante Virtual. Só lá pelo meio-dia do outro dia liberei o cara. Eu estava aliviado em não comprar um livro apenas pelo fetiche que aliás eu nem tinha. Como último floreio da espada eu escrevi uma mensagem para o livreiro dizendo que se ele quisesse me vender por 50 pilas, incluso aí o frete, eu comprava, que o livrinho era ruim e não valia mais que isso, e que logo seria republicado e ele ficaria com aquela velharia estocada. Ele me respondeu que passaria a proposta, no que eu notei uma revigorada ironia em ter ganho a parada. Duas horas depois vi que ele pedia 110 reais. No final da tarde voltei a acessar, e não havia mais nada.

Um salutar esclarecimento



Estou em estado de choque. Eu sempre vejo na linguagem das pessoas pela internet o uso de sinais gráficos dos mais simples aos mais complicados. Não entendo quase nenhum deles. Tirando o solzinho que ri, tudo o mais para mim é um mistério matemático. Tenho um traço de inveja mal digerida quando vejo a rapidez da galera em se comunicar com esses caracteres. Já que eu não entendo, fico igual um estrangeiro em uma terra estranha tentando descobrir os significados pelo contexto do gestuário. Desse modo, um dos mais enigmáticos símbolos desse descolado idioma jovial, que sempre me deixa embasbacado, é esse :3. Passei toda a minha vida desde que criaram essa belezura dando uma compreensão muitíssimo particular para isso. Quando alguém finalizava uma frase com :3, eu dava um sorriso torto diante o que me parecia o grau de liberdade que a geração moderna possui. Como essa gente é despojada, fazendo esse sinal :3, eu pensava; como eles são descomplicados em velhas questões pudicas defasadas. Uma vez vi alguém falando para uma moça que ela era muito gostosa, e tasca um :3. E a moça sorri de volta. Então não é um insulto, eu pensava, fascinado. O rapaz elogia a moça e destrói tudo numa ironia grotesca de dizer que ela era tão bonita quanto :3, e está tudo bem, um mundo de simpatia. Se esse símbolo fosse mais ancestral e fosse usado em minha época, daria morte, eu penso. Morreu porque encerrou uma frase para o outro dizendo que ele lhe soava tão divertido quanto um :3. Daria um desses contos de duelo pela honra nos pampas escritos pelo Borges. E aí hoje eu estou conversando com uma amiga e surge o ensejo de falarmos sobre esses caracteres. Eu digo que demorei a me acostumar com o :3, que as primeiras vezes eu até pensava em bloquear e tomar satisfação e essas coisas, mas depois vi o quanto de leveza havia nisso, de mandar o outro :3, como era cool e moderno. Depois de um silêncio do outro lado, essa amiga, depois do que parece estar contendo um ataque de pleurisia, consegue me dizer que o :3 nada tinha a ver com o que eu vinha pensando. Não era nem de longe mandar um beijo no cu.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Escola de princesas



Escola de princesas: mais um modismo vazio do Facebook, esse de estereotipar o que é certo e o que é errado na educação cultural de uma criança.
                                                                                           
 Minto: sendo direto, essa nova moda é um policiamento estúpido e machista que recaí sobre a educação específica das meninas. Trata-se da condenação do que passou-se a chamar de "escola de princesas". Menina inteligente é aquela que repudia a premissa e a estética da clássica figura da princesa. Menina inteligente é aquela que mostra o quanto pode se antecipar em seus posicionamentos assumindo uma maturidade precoce ao se submeter ao desejo dos pais de arvorar uma consciência política.

Daí então as consequências mais bizarras: fotos de meninas"amalucadas", "adultizadas". Em uma dessas fotos uma menina vestida de cachorro-quente no que parece ser um evento escolar onde suas outras amiguinhas estão todas com longos vestidos de princesas. Compro 3 livrinhos para a Júlia de uma tal coleção anti-princesas, para ver como é que é.

São sobre a Clarice Lispector, a Frida Kahlo e a Violeta Parra. Ontem lemos todos esses três e ela adorou, como sempre. Gostou especialmente da Violeta Parra, quando lhe identifiquei que era a compositora de um monte de música que ela adora: ela quem canta como el musguito en la piedra, papai? E me pediu para definir o que quer dizer "anti-princesas", e eu disse: são as mulheres que se tornam doutoras, professoras, cantoras, escritoras, pintoras, ou qualquer outra dessas coisas, e são independentes para fazerem o que bem quiser. A aí eu pergunto, fazendo teatro circense com minhas duas mãos levantadas como se segurasse em cada qual uma opção: o que você quer ser, princesa ou anti-princesa?, e ela me responde: anti-princesa. Mas daí ela faz uma de suas caras enfezadas e me dá uma bronca: mas não quero que você deixe de gostar das princesas, ela me diz, e prossegue: eu adoro as princesas, a Cinderela, a Rapunzel e a princesa Sofia. E eu respondo: mas também as adoro, e quero que você continue as adorando, não há nada absolutamente errado com isso.

Pois bem: há uma série paralela de livrinhos de anti-heróis, com apenas dois títulos: Cortázar e Galeano. Imagino porque tem apenas dois títulos: porque não vende. Não vejo posts na internet de pais preocupados em substituir o Homem-aranha, o Homem-de-ferro e o Capitão América, na leitura de seus filhos homens, pelo Cortázar e pelo Galeano. Suponho até que exista uma inerente preocupação nunca confessada desses pais de que submeter seus filhos homens a tal privação da cultura do herói possa afeminá-los ou torná-los pouco competitivos.

Para o menino pode o esteriótipo do herói, macho provedor, guerreiro de fronteiras, halterofilista socorrista com armas e violência, uniformes de facções de guerra e coalizões de fardados em prol da destruição de inimigos identificados. Para as meninas, a exposição à Branca de Neve parece-lhes letal, algo que futuramente pode tornar suas filhas páreas sociais, pode lhes incutir algum transtorno sexual mal visto pela comunidade. Um amigo pediu para comprar com meu cartão de crédito esses livros das anti-princesas para sua filha, e a ironia é que ele coleciona gibis de heróis da Marvel.

Eu comprei para a Júlia esses livrinhos depois, e... que bom que ela gostou, mas eles são um pé-no-saco. O Leandro Karnal disse uma coisa que, de primeiro, eu achei um absurdo, mas fui pensando e vi que ele está absolutamente certo: nenhuma criança e adolescente é susceptível à ideologia. Como não? Não é justo nessas fases que se formam os gostos, e não são essas fases os alvos das campanhas publicitárias mais massivas? Daí eu me reavaliei em meu período em que eu fui criança e jovem, e descobri que eu nunca senti o mais leve impacto das ideologias professadas pelos professores. Eu me deslumbrava com certos matizes ideológicos, mas nunca vestia a camisa de nenhum time. Baseado nisso, vejo o quanto é estúpido esse temor paterno e materno em fazer seus filhos seres-humanos esclarecidos e competidores perfeitos (porque a razão desse repúdio das "anti-princesas" é apenas esse: a de que as filhas possam prescindir de maridos e entrarem no mercado de trabalho por conta própria).

A criança tem que ser criança, e só. Tem que ter escapismo, sonhos, castelos medievais, raios laser, etc. Criança tem que ter liberdade de imaginação irrestrita, porque é isso que as tornarão independentes no futuro. Isso é que dá a emancipação.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Mais uma vez o prêmio Nobel



Aventa-se que tal prêmio homenageia a literatura beatnik, a contracultura libertária, certa apologia das drogas, certa vivacidade da língua jovial, o coloquialismo e a renovação meio bandida e anti-acadêmica da prosa poética,e, além do mais, é um cachimbo da paz com a literatura norte-americana. Então por que não deram o prêmio para o maior escritor norte-americano vivo, Thomas Pynchon, que representa isso tudo muito mais que Dylan? Pynchon tem uma legião de fãs apaixonados, assim como Dylan. Se a mulher tivesse dito "vai para Thomas Pynchon", seria uma convolução no mundo cultural, mais do que com Dylan. Estaria-se discutindo avidamente sobre literatura no mundo todo, em vez dessa bobeirinha efêmera que acontece e já está se apagando em torno do Dylan. Haveria uma super-exposição bastante positiva sobre modernidade artística e sobre o pós-modernismo nas letras _palavras pomposas e vazias no caso de Dylan, mas que se encaixam bem no caso de Pynchon. A academia sueca deu, na verdade, foi um tiro no pé se pretendia causar polêmica e chamar os holofotes para si. Se tivesse dado o prêmio para Roth seria uma reação morna, esperada, mas se desse a Pynchon seria um furacão de renovação na crítica literária e no mercado livreiro. Mas em vez disso, eles cometeram essa patacoada. O que reforça mais uma vez que literatura já não é mais o que importa para a academia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Escrita



Tente ler as letras do Dylan sem as melodias e se saberá o que é poesia literária e o que é letra de música. Essa comparação entre Dylan e os poetas orais, como Homero, é uma falácia. Homero vem de um tempo em que a literatura impressa não existia ou estava longe ainda de se firmar em sua tradição ortodoxa. Hoje a literatura é uma manifestação espiritual humana consolidada, e com isso tem seus dogmas e suas regras. Escolher Dylan para o Nobel é um tanto mais grotesco e ofensivo quando se pensa nas outras opções vindas do próprio país do cantor: dois dos maiores escritores dos últimos 50 anos são norte-americanos, Philip Roth e Thomas Pynchon. Não é questão de conservadorismo, é questão de respeito e saber sobre o lugar de cada coisa. Eu não preciso aqui dizer que sou ardoroso fã de Dylan (o que de fato eu sou há mais de 25 anos) para ter autoridade em refutar essa escolha da academia sueca. Basta conhecer um pouquinho só sobre as maravilhas da literatura contemporânea e sua importância para a melhoria humana e combate à alienação tecnológica para se ter o bom senso de perceber que esse prêmio de 2016 é muito mais que uma simples leviandade: é no mínimo uma propaganda às forças da dissipação mental e do conformismo. Quem escolhe Dylan para o mais importante prêmio literário em vez de Roth (para ficarmos apenas nesse exemplo, entre 30), é porque nunca leu Roth para saber do gritante descompasso de uma coisa dessas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Boêmios


Valter Hugo Mãe disse que trocaria seus 7 livros por um filho. Cada filho é um universo diferente. Minha filha Júlia quase nunca me diz "eu te amo", por isso quando o diz, sempre apaixonada, quase me leva às lágrimas. No dia dos pais, seus colegas da escola escreveram nos cartões de presente "Eu te amo, papai", ela me escreveu "Papai é meu puxa saco". O Eric recolhe uma pedra do vaso de plantas que temos na sala e a leva à boca; dou-lhe uma reprimenda: "Na boca não!"; ele engatinha a relativa distância entre nós dois, e me entrega a pedra; eu lhe digo: "Você pode brincar com a pedra, só não a coloque na boca", mas ele abana a mão negativamente querendo dizer: "Não, meu chapa, fique com essa sua pedra, parece tão importante para você", e vai se ocupar com outras coisas. Essa foto foi tirada pela Dani às 5 da manhã de hoje. O Eric acordou às 3 da madrugada e se recusava a dormir, e eu o trouxe à sala, embalei-o entre minhas pernas ao som dos Brandenburgo. Quando a Dani nos viu, ambos já estávamos afundado no mais profundo sono, e no aparelho de som rolava Live Evil do Black Sabbath. Minha admiração por Valter Hugo Mãe cresceu, tanto que na lista das compras dos livros do próximo mês dois títulos dele estão agendados. Sim, Mãe, filhos são muito bons! A impressão é que esse anarquismo completo na ordem do dia (e da noite), é uma das coisas que mais conta nessa felicidade. Vou restabelecendo o contato duramente cortado para que se possa ler e escrever nessas horas inesperadas, em que são por total e irrevogável direito deles.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ler Wislawa Szymborska é rejuvenescer



Por serem tão poucos, cada poeta que me marcou tem seu momento temporal em que entrou em minha vida bem guardado na memória. Eliot foi-me apresentado no colégio, com as incipientes discussões filosóficas de minha classe de amigos. Os homens ocos era um hino elegante que nos alertava de uma distante maturidade contra a qual deveríamos nos manter em guarda_ e ter acesso às raríssimas edições de Quarta-feira de cinzas era ler agraciado um antigo evangelho pós-cristianismo. Uma tarde em que eu vagabundeava matando aula da universidade me deparei com O canto da estrada aberta, de Whitman. Estava em um volume velho de poetas universais em uma biblioteca na praça universitária, e não sei se foi por curiosidade em ler um poeta que meu preconceito identificava imediatamente como o representante falconesco da América imperial que me movera a lê-lo, achando eu que meu repúdio iria vir com fiel precisão. Sentei-me no chão entre as estantes e quase chorei diante aquilo. Era tão arrebatadoramente belo e verdadeiro, tão selvagem e celestial e ao mesmo tempo profundamente humano, que eu tinha que parar a leitura por alguns segundos para poder respirar. Foi a primeira vez, creio, que eu cogitei além de meros exercícios fantasiosos em abandonar tudo e seguir o que aquele cara ordenava. Livre e saudável, sigo pela estrada aberta. Era um livro que não se podia retirá-lo da seção especial em que ele ficava e levá-lo para o andar debaixo para a máquina de xerox, de modos que ia todo dia para copiá-lo à mão em meu caderno. Recito esse poema ainda hoje e o farei para sempre; sei-o de cor em português e em inglês. Uma noite de chuva peguei um ônibus vazio e fui até o shopping comprar uma coletânea do Seamus Heaney, um poeta telúrico bastante idiossincrático que surpreendentemente também se tornou fundamental para mim. Eugenio Montale eu conhecia desde a minha adolescência e o admirava, mas ele só foi entrar em minha vida de vez em uma etapa das mais difíceis em que o lia com a mesma fé com que alguns leem os Salmos. Thiago de Mello é o único que escreve em português que os caminhos erráticos e incompreensíveis da minha admiração aceita como imprescindível_ foi um grande amigo que me apresentou e meu amor por ele conta com reminiscências muito pessoais. Resta mais 4 poetas fundamentais. Maiakóvski é um dilema: odeio e amo na mesma medida, e não vivo sem ele. Salvatore Quasimodo tem sempre uma palavra amarga sobre tudo que me consola de uma maneira serotonínica. Juan Ramón Jiménez é meu poeta infantil e menor que me provou que há poetas menores que tem a mesma estatura espiritual dos gigantes, e é fundamental justamente porque a preguiça do idioma simplifica as coisas com esse erro estratégico de conceituar o conteúdo através de medidas volumétricas que não dizem nada. A outra poeta eu conheci há 4 anos, o que infere que cada um deles apareceu concordante com o encaixe exato em meu processo de maturação como indivíduo. Pois Wislawa Szymborska é uma mistura de todos esses outros poetas, com o acréscimo de fazer pouco caso de si e não ter o mínimo espalhafato vaidoso de achar que sua poesia seja libertária, revolucionária, meiga, iconoclasta ou que traga uma mensagem espiritual subliminar. Analisando a linha dessa minha apreciação tem-se um retrato bastante significativo sobre mim mesmo, sobre o que eu sou_ o que me espanta. É como se eu tivesse nascido com minhas necessidades estéticas e minha sede pelo aprendizado que vem da poesia já prontas, e meu único dever era descobrir passo a passo os poetas previamente assinalados que preenchiam essa cabala. Wislawa, julgo, é o desfecho de tudo que a poesia em não-prosa tem para enriquecer a minha existência. Todo o estrondo dos outros poetas continua quando os leio ou os recito de cor, mas na casa dos 40 anos, a sabedoria despojada de Wislawa, seu honesto hedonismo pela vida, sua nota embargada de velha senhora nonagenária que sobreviveu a tantos terrores da história, me cala profundamente e me acalenta de uma forma que hoje é dela que me sinto mais próximo. É uma escritora que atingiu há tempos a real compreensão de seu ofício, descarregou-se de toda pompa e todo fardo dos clichês modisticos de como um escritor deve se apresentar, e tal lucidez está em cada uma de suas obras: uma maturidade humana plena, uma voz que se desobriga da tolice de qualquer virilidade para se fazer ouvida, uma nudez belíssima em que a esbelta senhora explora sua visão desse mundo com essa sabedoria rara que se refresca com um falar para si mesmo que vai além da literatura. Nesse segundo volume de poemas que ora a Companhia das Letras lança da Wislawa no Brasil _ um fato que atesta o quanto ela é querida por aqui, visto que poucos poetas, mesmo os nobeliados, conseguem permeabilidade de vendas que autorize a publicação de outra obra_ , lemos ela dizendo em seu discurso em Estocolmo que não se considera uma boa poeta, que não faz poesia "muito bem". Em certo sentido, é isso que o leitor percebe, e os leitores superficiais somam na balbúrdia dos estúpidos da web comentários de que é injustiça premiar Wislawa e não poetas maiores que ela (como, certa vez vi citado, Cecília Meireles, na sempre tosca cobrança de ufanismos patrióticos). Eu percebo que Wislawa nunca se importou com isso; o que ela escreve vai além da poesia, é uma forma de expressar sua mais íntima experiência de vida através de observações que, mesmo as mais pueris, são carregadas de um espontâneo arrebatamento. Não é raro uma lágrima fugaz escorrer pelo rosto quando se a lê, nem deitar o livro no colo e ficar olhando o tempo com um maravilhamento novo. Ler Wislawa é rejuvenescer. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Júlia e o blog vão fazer 6 anos



A Júlia com 1 ano, e a Júlia e o Eric


Eu sempre falo que comigo todos os clichês da redenção pela paternidade aconteceram. Eu só descobri o que é mesmo o amor depois de ter filhos; eu só descobri o que é a felicidade plena depois de ter filhos; eu só descobri o quanto devemos respeitar milimetricamente cada pessoa e todo mundo depois de ter filhos (porque todo mundo é filho de alguém); eu só entendi de forma profunda o quanto meus pais me amaram, e o quanto eu lhes dei motivos para preocupações, depois de ter filhos. A Júlia me mostrou que eu não poderia amar duplamente um ser como eu a amo, e aí veio o Eric e me provou que eu posso, porque amo os dois da mesma maneira e na mesma intensidade. Fico os olhando por horas, enternecido, carregado de orgulho e mágica por eu ter contribuído por tamanhas perfeições. Um dia um colega meu criticava para mim a "coragem" de um amigo dele em expor seu filho recém nascido no Facebook, porque o menino havia nascido com o lábio leporino, e eu, antes mesmo de me conter, respondi a ele me admirando o quanto ele era estúpido em falar algo assim, porque um filho meu poderia ser de qualquer jeito que eu sentiria absoluto orgulho dele. A primeira gravidez da minha esposa, a Dani, foi de altíssimo risco, e o médico nos dissera com sinceridade que o bebê poderia nascer com alguma deficiência. Eu amaria a Júlia mesmo se ela tivesse nascido um rabanete, e ela nasceu minúscula, murchinha, cabia quase na minha mão; nasceu com uma imensa fragilidade de forma que eu tinha receio em pegá-la e machucá-la sem ver. O dia que eu as trouxe_ a Dani e ela_ para casa, enfrentamos uma chuva intensa na estrada, e viemos ouvindo no carro todo tipo de música abençoada, Pink Floyd abençoado, Led Zeppelin abençoado, Van Morrison abençoado, porque eu dirigia em estado de graça vendo as duas lá atrás pelo retrovisor, o ratinho rosa que era a Júlia em volta em mantas dormindo no bebê conforto, e o olhar da Dani repetindo o meu com o brilho do êxtase, a descansada e vaidosa plenitude da maternidade e da paternidade. Nós sabíamos que nada de ruim poderia acontecer com a gente. Chegamos à casa antiga em que eu morava, minha casa de solteiro caindo aos pedaços, com a auto-suficiência aristocrática dos permanentemente saudáveis e felizes, e colocamos a Júlia no berço junto à nossa cama e ficamos babando em cima dela, a menininha que, aos 3 meses de gestação, a Dani recebera o prognóstico de que ela tinha uma margem pequena de chance de nascer. E agora ela estava ali, o milagre do qual nunca duvidamos (o milagre do qual eu tinha tanta certeza que nem cheguei a pedir a Deus). Cinco anos depois, o médico da Dani autorizou que tivéssemos mais um filho; em uma semana engravidamos e sentimos o mesmo deslumbramento da gravidez. E aí nasceu o Eric, uma bola grande e gorda que era fisicamente o oposto da irmã. Hoje ele já está esbelto e dando seus primeiros passinhos pela casa. Amanhã será a festa de aniversário de 6 anos dela. As avós estão em casa e mais uma turma de amigos e parentes. E a vida, a resiliência e a ausência de medo, o amor e a luz, são sempre maravilhosos.

sábado, 17 de setembro de 2016

Leitura, a falta que você me faz



Já nas primeiras páginas o Gaspari fala do quanto o militarismo era corrupto, com fraudes na construção de hidrelétrica e dos planos de construção da bomba nuclear brasileira que custou, na época, o desvio de vultosos 30 milhões de dólares dos cofres públicos_ projetos que nunca chegaram a ser finalizados porque, além de corruptos, os militares eram muito ineficientes (a única coisa que sobrou do projeto da bomba atômica, diz o autor, foi um buraco de trezentos metros de fundura em que os sábios cientistas da ditadura intentariam explodir as bombas experimentais, valha-me santa Sucupira!). Gaspari_ que deve muito de seu estilo a Garcia Marquez_, brinda o leitor com uma impagável descrição carregada de ironia da "bravura" e "pragmatismo" dos generais e coronéis, apontando como eram bons em acumular papéis em seus escritórios e ficarem com suas caras de sono suportando o expediente até o fim. Aí vem essa gentinha miúda e iletrada, que infelizmente grassa em grande quantidade por toda a geografia, querendo a volta da ditadura, elogiando a austera "pobreza" dos presidentes e altos caciques militares após o fim do regime. Como a falta de leitura e o completo desinteresse pelo conhecimento é de extrema letalidade.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Molares



Por alguns anos acreditei que para fugir da história bastava me forçar a uma profunda estupidez onírica. Minha aparência típica de um médio-europeu me ajudava nisso, meus olhos próximos, os músculos da minha boca em um sorriso imutável da vítima evadida das circunstâncias, meu nariz que quase se tornava uma cartilagem seca quanto mais velho eu me tornava, e minha estatura que remetia aos lacaios dos romances sociais russos do século XIX. Exerci com perícia uma cara de quem só entende sobre suas pequenas preocupações cotidianas, estando num limite bem aquém de se interessar por notícias. A sociologia sempre superestimou a inteligência; o começo da libertação era se fazer acompanhar com um tratado político nas noites de descanso da fábrica. Trótski estudando nos vagões de carga dos trens siberianos até São Petersburgo; as prisões reformuladas por Stalin para que seus segregados não usufruíssem da distração estratégica dos czares em tornar os livros acessíveis para os presos do regime. Até um Onassis catando guimbas no porto, o horizonte de suas possibilidades ampliando-se em seu cérebro turbinado, se trata de uma desfaçatez na compreensão de como o homem comum programa o uso de sua vida. Para a maioria de nós, a única e verdadeira bênção é ser capaz de se exorcizar dessas ilusões do heroísmo individual criadas pelo rancor daqueles que tem um conceito fanatizado sobre a derrota. 
                 Não que eu não tenha minha parcela de erudição. Formei-me em história em meus anos de juventude na Hungria, mas meu pé no chão quanto a cobrar meu lugar de conforto pelo mérito está longe de ver alguma ironia nisso. Cheguei a escrever para um jornal de oposição ao regime que então recém se instaurara, e a tentação de botar meu senso da verdade em jogo em nome do heroísmo não foi pequena. Tive que fugir pela fronteira junto ao grande rebanho de ameaçados de morte. Cheguei a Londres sem falar uma palavra em inglês, e um senhor me aceitara como guarda noturno de seu cinema. Eu dormia em um quarto ao lado da sala de projeção. Nesses dias me serviram muito mais que meu diploma a felicidade lembrada de meu pai quando retornei de meu primeiro dia com a caixa de graxas para sapato nas costas. Um reconhecimento sagrado de cumprida sua missão paterna. Meu pai já havia desaparecido quando me servi de sua mensagem; morto pelo desgosto com um ataque cardíaco fulminante na mesa de jantar. Muitos de seus antigos companheiros não tiveram a mesma disposição em exigirem bem pouco da Musa Iconográfica. No jornal, até conhecidos meus das mesas ao lado resolveram pelo suicídio. Naquele quartinho apertado, ouvindo as vozes dos filmes que contavam sobre assassinatos em preto e branco para uma plateia de casais de adolescentes, eu agradecia a meu pai. Minha cara foi se tornando ainda mais adequada à condolência desatenta das pessoas. Vocês não sabem, por exemplo, o poder que é não ter os molares. Fui perdendo-os paulatinamente depois dos 30 anos, vítima não da falta de higiene, mas de um processo de descalcificação que aprendi a aceitar como natural devido a estar longe da minha raiz. Confesso que me era impossível fugir da nostalgia do frio, das cornijas carregadas de gelo das casas, da neblina de 20 graus abaixo de zero. Nas pessoas susceptíveis isso provoca a queda de cabelo, o câncer; em mim fazia cair meus dentes. A distância entre uma foto minha ainda rapaz, tirada no estribo da faculdade, em que apareço com um sorriso encenando confiança, os incisivos brancos e fortes parecendo imunes à deterioração, e como estou hoje, é enorme. Um de meus incisivos foi se desgastando até ficar a metade do tamanho, e se entorteceu, tombando para a esquerda pelo seu próprio peso. Era impossível eu ver; nos espelhos parecia que continuava em sua densidade juvenil; até que uma senhora em uma fila do açougue o mencionou simpaticamente. Eu achava que a dentição era um dos assuntos vetados para os ingleses, mas ela sorria e me apontava meus dentes como se falasse de um detalhe peculiar em uma luminária de rua. Ela, inclusive, foi quem me esclareceu sobre essa ideia de que meus dentes foram se enfraquecendo por eu estar longe do “lar”. Morar nesses bairros planificados e nessas charnecas assoladas pelo fog, tendo a chuvinha miúda constante por sobre os guarda-chuvas, dão uma crença sagrada ao conceito de “lar”. Eu posicionava dois espelhos contrapostos para poder ver meus incisivos da maneira certa, mas eles me pareciam normais. Tirei uma foto 3x4 com um sorriso que estranhou o manejador da máquina, que deve ter juntado isso a todo o resto de meu aspecto para me achar um abobado, e corri para casa para apreciar da devida forma aquela revelação. Eram horríveis, amarelados, placas bacterianas incrustadas nas laterais como hera em crescimento progressivo. Fiquei horas no quartinho olhando embevecido a foto, e pensando o quanto é tendente estarmos sempre enganados quanto a nossa destruição. Há sempre um resquício de vaidade a ser eliminado.
             Pois bem, o cinema pegou fogo e eu tive que sair de Londres antes que as investigações avançassem. Alguma manifestação juvenil; coquetéis molotov atirados indiscriminadamente em bancos, universidades, delegacias e no meu cinema. Os jovens revoltados com o sistema não faziam distinção, ou talvez a coisa fosse muito sutil para que eu percebesse. O cinema passava filmes ingleses de produtores locais, açucaradas novelas de campo, nomes que eram difíceis se lembrar no momento quanto mais depois de tantos anos. Adaptações de Jane Austen e Trollope feitas com verbas do departamento de cultura. Essa expressão de uma frivolidade regimentar implantada de alto para baixo deve ter deixado alguns daqueles jovens leitores da escola de Frankfurt sem paciência. Embora o que eu via nas ruas era a mesma grandiloquência exagerada da procura pela mudança, pessoas que pregavam panfletos nos postes e tinham olhares esgazeados, sob o efeito de drogas modernas. Talvez seja romantismo supor que eles tivessem um pensamento com nuances complexas para atacarem um cinema por causa dos filmes que passava. Assim como eu não me atinara à destruição de meus dentes, eu sub-repticiamente superdimensionava a inteligência.
            Na fuga levei três caixas de filmes. Queria devolvê-las para o generoso senhor que me dera abrigo. Algo do bom-mocismo de meu estoicismo pessoal me contaminara, eu achava que seria enternecidamente condizente com minha insignificância mostrar aquelas preciosidades resgatadas para ele. Na certa havia uma astúcia em ganhar com isso algum outro abrigo em um possível local seguro, onde eu poderia continuar com meus pequenos estudos e minha pequena vida em geral. Mas de novo a história passava com sua patrola indiferente ao que estivesse embaixo na terra, sem querer contemporizar com os vermes (sei que é um termo coloridamente autoindulgente e exagerado, e que ninguém se oferece em tamanho sacrifício à sobrevivência assim, mas deixem que eu continue).  Nos jornais noticiaram o incêndio do cinema sem que se fizesse referência ao cigano que pernoitava em suas instalações (para a apressada visão coletivista da época, todos nós, húngaros, armênios, tchecos, éramos ciganos), mas era fácil sentir as investigações em sigilo da polícia local apontadas para todas as nuances exóticas. Lembro que peguei um navio três ou quatro dias depois, e jamais pude me encontrar com ele. O navio tinha um desses nomes institucionais, Saint Ethiene, HMS Victory, não mais que uma sucessão consonantal para o não-emigrante estrangeiro; para mim parecia uma ortodoxia já esvaziada de sentido de uma religião antiga, que minha não participação esforçava-se para não pensar em sua fria função de me expulsar, me mandar para bem longe.
                 Foi quando cheguei em São Miguel. Dezessete dias de trajetória singrando o Atlântico. Na escrita pode-se colocar toda aquela imensidão sensorial em umas poucas palavras. Quem dera pudesse ser assim na vida real. Poupar os sentidos de tanta cobrança de respostas, o corpo de tanta autoconsciência de seus limites. E havia a tristeza do mar, isso que até então eu só compartilhava da literatura. Uma tristeza sem fundo, que deixava a despreocupação de que se poderia morrer sem que se perdesse alguma coisa. Era como se minha busca pela insignificância houvesse enfim me contaminado até um nível absoluto. Olhava as águas batendo em seu fio contínuo no casco cinco metros abaixo e pensava que tanto fazia se eu desaparecesse. Mais tarde me disseram que era um sintoma típico da viagem. Um senhor esloveno, chapéu de velho madrugadino se inclinando para a testa ao efeito do vento equatorial que dava suas primeiras aparições, barba branca e rosto encavado que pouco estava aí para qualquer coisa, sentado ao meu lado nos cabos de arribação. Não era sua primeira viagem e se espantava de não ter visto até agora alguém se atirando ao mar. Eu me vi tão carente de uma expressão de bondade que aceitei que ele estivesse me precavendo, como se suas palavras estivessem me retendo pelo braço. Aportei em uma capital da América do Sul, e dali uma mistura de inspiração e informações me levou até São Miguel.
                A palavra que eu repetia a torto e a direito era: disappear. Era uma das palavras de meu restrito inglês de reflexões pessoais. Where i can disappear? Essas cidades de ninguém têm sua relojoaria séria, executada em prol da manutenção instintiva da vida, seus descarregamentos de carne de porco salgada e arroz encaroçado, tonéis de óleo de linhaça e fardos de peças aleatórias de ferro acondicionadas para o conserto de fogões e televisores, haveria quem entendesse aquelas palavras proferidas por alguém que não ligava para a constituição rígida e fanática da permanência da espécie. Iriam acabar me entendendo. Achei um dos caminhões que transportavam sacos de mantimentos e fui dispensando os vilarejos que me pareciam mais aprazíveis. Pedia com meu sorriso de coitado e meu olhar destituído de inteligência ao motorista se eu não poderia prosseguir. Proceed. Se as casas tinham algo que me agradava e me lembrava de espairecidas tardes de sol, eu acenava com a alegria dos tolos, tão treinada por mim, e dizia proceed. Se eu notava um ar atarefado ou uma mulher com algum sinal de que pudesse haver alimento suficiente para as conversas malévolas sobre a vida alheia_ se havia notas de possibilidades de que houvesse vida alheia suficiente para tecer maledicências_ eu me aprumava em meu canto da cabine e insistia, como o cãozinho sarnento que abana o rabo para agradar o dono mais um tanto e não ser atirado para fora: proceed. Aí chegamos à última aldeia, que consistia apenas em uma rua de terra com casas grotescas sob um sol inclemente, onde nem quando o motorista deu seu grito de alerta pareceu que não iria surgir alma viva para nos receber. Umas dez casas. Mas logo o caminhão fez sua manobra entre as bifurcações do mato e parou em frente a uma saleta de porta de metal corrida aberta, que compreendi ser o mercado do lugar. Não havia mais para onde proceeding, me disse o motorista. E lá fiquei. Era o lugar mais distante que podia ir para fugir à história.

domingo, 4 de setembro de 2016

The night of



Sim, o Faulkner estava certo: existem sempre os mesmos temas capitais para a arte, que falam sobre a coragem, a dignidade, o sofrimento, a luta contra a opressão, a fragilidade, o erguer-se na derrota, a perseverança, o sacrifício, o amor e a resiliência. Toda a grande literatura e a ficção, não importa de qual época e vertente, falam sempre dessas coisas. É com esse pensamento que eu acabei de ver o oitavo e último capítulo agora de The Nigth of, após tê-lo colocado para gravar faltando sua imprescindível meia hora final e tendo conseguido só hoje baixar o episódio inteiro. É tão genial e soberbo quanto a primeira temporada de True Detectives. Confesso que após o primeiro inesquecível episódio, cheio de silêncios e suspense, pensei que a série iria se implodir em um arremedo das velhas tensões e lugares comuns da televisão, disfarçado com a sofisticação da lentidão de uma ótima fotografia, e questionei o gosto de colocar o personagem de John Turturro (um ator sempre excepcional!) com uma característica repulsiva como a grotesca alergia desfigurativa. Mas a partir do quinto episódio, a obra assume status de obra-prima: é tudo soberbo, atuações, enredo, diálogos. E a última cena da temporada, a última cena, é belíssima e comovente. A grande série americana traz também uma marca registrada: consegue limpar a alma. Estou agora assepsiado pelo contato da grande arte.

sábado, 3 de setembro de 2016

Terapia da música



Seguindo por esse tempo de necessário isolacionismo, estando a Oi em seu prosseguimento natural de espoliar confortavelmente a crendice estúpida e conformada do brasileiro (em todo o estado de Goiás, eu confirmei, está um martírio acessar a internet da Oi), acolhi o conselho do eferim (obrigado, meu chapa!) em ouvir a banda Godspeed You! Black Emperor. Esse álbum aí em cima é uma das melhores e mais gratificantes músicas que ouvi nos últimos tempos, e casa espetacularmente bem com o momento em que vivemos. Mistura de música erudita, com pós-rock, rock progressivo e experimentalismo. Aconselho a não baixarem pelo torrent, porque não vem os encartes dos álbuns, necessários e complementares à obra: baixei em um site que foi criado por alguém apenas para disponibilizar a discografia, creio que é o primeiro link do Google, e nele vem as formidáveis e imprescindíveis capas e encartes. Estou viciado nessa música; fiz caminhada ontem ouvindo este álbum e olhando a massa de nuvens tempestuosas que se criava em cima da represa. O eferim me aconselhou a passar essa música de madrugada no tratamento musical que faço para o sono de meu filho Eric, de dez meses, mas acho inapropriado: tem muitos espaços vazios e muito maravilhoso silêncio musical, o que só pode ser apreciado em um volume mais alto, o que de madrugada fica impraticável. O Eric acordava vinte vezes por noite; a Dani ficou tão exausta, que uma manhã, lá pelas sete horas, eu peguei o Eric e ela desmaiou sentada no sofá, com a cabeça apoiada no encosto, o que resultou em um torcicolo e uma câimbra na perna quando acordou uma hora depois, brava comigo por não tê-la chamado para se deitar na cama (mas, meu amor, eu pensei que você estivesse brincando, eu respondi, absolutamente sem saber na verdade porque a deixei lá, mas muito provavelmente sendo porque o Eric nos deixa a todos desbaratinados). Depois que compramos um sonzinho mediano para colocarmos no quarto, com um pen drive repleto de música clássica e alguma música inclassificável de porte, o Eric se curou. Foi uma dessas descobertas mais estupefacientes da minha vida. Eu queria escrever um tratado sobre essa maravilha e não apenas um post. Na primeira noite, ouvindo Márie Brennan, uma cantora irmã da Enya que está na raiz do namoro entre a Dani e eu (ambos a amamos e só dormíamos, na época do namoro, quando ela dormia em minha casa, ouvindo-a), e logo depois, entre outros sons, os concertos para violino do Mozart (Anne-Sophie Mutter) e as sonatas para flauta de Bach (Aurèle Nicolet), o Eric acordou três vezes. Três vezes apenas! Na segunda noite, com a ração narcotizante dos Concertos de Brandenburgo e a cantata dos camponeses e mais as sonatas para piano de Mozart, o Eric acordou duas vezes. 2!!! Na terceira noite, como num padrão sucessivo, acordou apenas uma vez. A Júlia veio dormir em nosso quarto porque quer participar da musicoterapia, e hoje nós a pegamos dormindo sentada no colchão de casal que eu coloquei ao lado da cama (para que eu pudesse caber nesse esquema todo), no que foi provavelmente uma inútil tentativa dela acordar mas em que foi derrubada pela Maria João Pires. Minha casa se transformou em um templo de música, e isso me enche de uma felicidade sagrada. De madrugada eu acordo e escuto a música que está passando, e o efeito sempre é maravilhoso. O Eric e a Júlia sabem bem o que fazem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Topografia ( tipos brasileiros comuns)



Um colega de trabalho me mostra, orgulhoso, um vídeo pelo celular em que ele filma seu filho de dez anos com uma jiboia enrolada no braço. Estavam indo para a fazenda, se depararam com a cobra, ele parou e obrigou seu filho a pegá-la. É nítido a cara de terror do menino, enquanto fala "chega, pai", e o pai admoesta: "deixa de moleza home". Mais tarde fico sabendo de um amigo que ele faz esse tipo de disciplina radical porque teme que a voz fina do filho não seja apenas um traço da idade.

Ontem esse colega estava defendendo o Bolsonaro. Eu lhe digo sobre o posicionamento dessa figura quanto à educação dos filhos, que eles devem levar uns bons tabefes para engrossarem a voz, e esse colega me responde: "Mas não é assim que tem que ser? Você não tem um filho homem?" Eu lhe digo que é um tanto estranho ele, um homem negro, defender um racista, e ele me responde, literalmente: "Alguns negros merecem o racismo".

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Hoje minha esposa me relata o episódio que aconteceu na escola militar de nosso sobrinho, o Rui. O ônibus escolar chegou dez minutos mais cedo ao colégio, e os alunos foram barrados na entrada: não podiam entrar tão adiantados. Uma chuva os pega e ficam Rui e seus amigos enfrentando-a diante os portões rigidamente fechados da instituição. A farda encharcada, fora dos padrões da impecabilidade marcial militar, faz com que eles não possam entrar no colégio em definitivo nesse dia. Alguns telefonam para os pais, mas o Rui não tem pai e as únicas pessoas que o podem buscar são a avó, que não pode porque está acamada com labirintite, e a mãe, que não pode sair do trabalho. O Rui, que já foi assaltado e levaram-no o relógio, que é uma criança ressabiada e algo assustadiça, fica rondando pela cidade por cinco horas até dar o horário de entrar no ônibus de volta. Sua mãe paga 150 reais de mensalidade para isso que é tido como colégio público e gratuito, gasta 750 reais por ano com a farda, e mais 500 reais por mês do transporte vendido pelos próprios administradores do colégio. Eu sempre falo para a Dani que não consigo imaginar o Rui nesse tipo de instituição, e ela me diz que sua irmã prefere isso à escola pública convencional, com o tráfico de drogas, o bullying, a violência e a ingerência e a péssima qualidade do ensino.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O quadro em branco na parede

Anselm Kiefer, Heroic Symbols, 1969


Chego ao escritório hoje e tenho que ouvir os mesmos clichês, as mesmas ladainhas, as mesmas ideias fixas e o mesmo ódio que pretende ser debochado. Me resta concordar com tudo, rir e levar na esportiva; não dói nada ser falso, tamanha a minha consciência de que contestar esse muro é não só inútil quanto demasiadamente desgastante. Eu não estou certo, não me ponho nessa situação em momento algum, apenas optei por descartar o máximo de relativismo que me seja possível. Já expliquei isso antes para alguns colegas, mas ou parece que eu é que estou num estágio de fundamentalismo, ou eles é que são incapazes de enxergar algo que não seja o desesperado utopismo. Querem um futuro que não cabe em nossa medida como povo, uma redenção vinda de não se sabe de onde. A vingança que estão tendo nestes dois últimos dias não lhes parece mais doce; eles esperavam uma catarse completa, uma expiação que proporcionasse a simplicidade inquestionável da dicotomia bem/mal, e não tiveram. Estão em um desbaratino tão delicado que não podem se por como logrados, porque isso destruiria de uma vez as suas já frágeis certezas. Me recordo então do Herzog, um dos personagens do grande Saul Bellow que moram comigo eternamente, ele andando por Chicago se questionando se realmente lera os livros certos e se ao lê-los não fora um tanto preguiçoso, se a verdade lhe escapara. Cogito se eu não estou errado; diante essa malta de pessoas que se regala com o conforto da certeza comunitária, se eu não deveria fazer o mesmo, a história não se avultará para provar que a voz de deus é a voz do povo e eu não passo de um esnobe tolo. Afirmar isso seria jogar no lixo todos os livros de história e toda a impactante literatura política que me passou pelas mãos, eu os entendendo ou não. Capitular seria mentir para toda a minha vida em que me preparei, mesmo não tendo a consciência disso na maior parte do tempo, para a ocasião inevitável em que eu estaria absolutamente sozinho. A busca do esclarecimento não passa disso: se preparar para o momento inevitável em que a solidão o segregará do poderoso senso comum; tornar-se mestre do silêncio. Muitos indícios de que o momento está chegando, e agora eu tenho filhos, uma esposa, agora tanta gente que eu amo que falar não me parece uma boa coisa. Lembro do jovem Elias Canetti na Kristallnacht, quando o terror de estar no meio de uma massa enfurecida ditou todo seu tema de como evadir-se do pecado do coletivismo_ escreveu Massa e poder, uma bíblia e uma vacina não devidamente lida. Lembro do conto A bandeira inglesa, em que um Kertész demasiadamente lúcido descreve a euforia de meros segundos que foi a sarcástica revolução de um carro metralhado com a bandeira inglesa da libertação abortada. Aqui eles estão falando de Bolsonaro, de militarismo; um colega negro chega a falar que certa expressão do racismo é mesmo legítima. E me sobra o orgulho de conhecer uma nova força em mim, a da dissipação, a da não importância, pois espero dar a hora propícia para ligar para minha esposa para perguntar se o plano que fizemos ontem para facilitar o sono de nosso filho de 10 meses, Eric, funcionou: o de colocar um aparelho de som no quarto tocando as músicas que o fazem desmaiar durante a noite: uma partida noturna efetiva às custas de Bach e Mozart, de Mogwai e Explosions in the sky. Não sei até que ponto esse meu desinteresse corrobora com alguma coisa, se isso também não é seguir as massas. Talvez eu esteja me achando ingenuamente astucioso demais.

sábado, 27 de agosto de 2016

Barriga



Um grande amigo que está longe me perguntou ontem por celular o que estavam falando aquelas pessoas à minha volta que tanto falavam nesses últimos meses, vociferando, cheias da ira pela justiça, pela compensação e pela vingança. Eu respondi que todos estavam em um grande e constrangido silêncio, como aquela moça deflorada pelo rapaz que se anunciou como o amor de sua vida e que sumiu sem deixar rastros, deixando-a com uma barriga, ou como aqueles gananciosos com fé distorcida na bênção pessoal do acaso que apostam uma grana alta em pirâmides financeiras e são avisados dias antes da quebra total que toda sua grana irá desaparecer. Um vergonhoso e eloquente silêncio que lhes fazem parar o olhar e sair de fininho da cena, e entre os melhorzinhos deles a coisa fica remoendo na cabeça, martelando e zoando na cabeça, sem parar: "e agora?".

Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga



Antes, como todo mundo, eu andava atrás de meus antigos e desaparecidos amigos pela net. Por ter obtido sucesso na procura eu parei com isso. Tenho uns 5 amigos que me eram fundamentais, provado isso pelos sonhos estranhos que eu passava a ter ansiando abraçá-los. Amigos que éramos tão gêmeos no humor, nos gostos, nas angústias, nas promessas, que minha alma sofria muito diante a nostalgia da juventude extraordinária que eles me proporcionaram. Com eles eu tive uma banda de rock, as mais pynchonianas aventuras de viagens e bebedeiras (e passa por aí minha paixão por Pynchon), os amores platônicos em que o bom era quebrarmos as caras para suportá-los mais intensos, as longas e madrugadinas conversas, os projetos mirabolantes, o deslumbre com a literatura. Tive uma juventude plenamente feliz com esses caras; eu tenho a sorte de ter uma estrela imantada que atrai esse tipo de gente. Um deles, desses meus amigos imortais, eu conheci quando pegava o ônibus para o colégio Objetivo; todo dia eu encontrava com seu sorriso ultra-simpático que me causava nojo e sua aproximação para conversarmos, e eu sempre fugia dele até que ele me conquistou. Esse aí é o Marlon, que, há dois anos, achei seu telefone e liguei para ele, com meu coração saindo pela boca, e quando ele atendeu eu fui tão irreverente, tentado recriar nosso ambiente, xingando-o de filho da puta por que sumiu de mim, e ele do outro lado em uma frieza monumental, quase me tratando por senhor. Despedi com um fiapo de voz e considerei que nossa amizade acabara, ou eu continuaria me referindo a ela no passado. Ele mora em uma cidade próxima daqui, algumas vezes pensei em ir lá de surpresa, mas eu tive tantos assombros diante o que o tempo e a vida comezinha fizera com esses meus antes radiantes amigos que desisti. Desses 5 amigos, apenas um conserva uma reserva suficiente do que era antes para que nós ainda possamos nos falar, o Fernando, que veio aqui em casa jantar conosco ontem. Os outros vou falar: encontrei com um no shopping há uns oito anos, e o cara tinha o olhar cheio de um espantoso rancor, o que percebi que ele tinha uma medo pavoroso de descobrir que eu me dera bem na vida, estava melhor que ele; quando nos despedimos no estacionamento, eu vi que ele desmoronava e me odiava para sempre ao ver o carro em que eu estava, e só não falei para ele não se preocupar porque era o carro da minha mãe porque eu estava em estado de choque. Eu fui embora remoendo o pensamento de se eu também me tornara tão babaca e previsível, se em mim todo o frescor e a poesia e a infantilidade de outrora havia sido exterminada e, diante os olhos dele, eu era um ser de uma boçalidade pesada.

Os outros: um virara um comerciante que o riso superficial que ele achara para suplantar o escândalo glótico que era antes sua demonstração diante o espetáculo incerto da vida me deixara em depressão por um bom tempo, reforçado pelo tapinha nas costas e pelo "vamos nos falar hein?, não vamos nos distanciar mais não, meu caro", que me deixou numa imensa broxada (e esse, porra, esse era o que eu mais amava). O outro, o outro apenas virou um pai de família, apenas murchou em seu nicho, com conforto se esvaziou de tudo, esvaziou-se tão hereticamente de toda e qualquer loucura, que me oferecia em sua sempre sinceridade descansada as opções progressivas de conversar sobre comida e o que se poderia fazer a níveis médicos para reduzir essa comida do calibre das veias. (Há dois outros: o Safatle, que me chamou para jantarmos juntos, e que um dia eu irei, e a Inamar, uma amiga minha com o qual eu dividia natais nos quais eu não tinha lugar para ir e passava em sua casa acolhedora, e que eu contava sobre meus planos de virar missionário na África, e ela me contava sobre seu sonho absurdo e meio ridículo, mas que eu a amava demais para nunca ser honesto com ela sobre isso, de ser apresentadora de um programa infantil televisivo. Depois de uns cinco anos a reencontro, quando eu passava minhas tardes de desempregado nos trites cinemas do centro da cidade, e ela me chega pelas costas falando ortodoxamente (como se ela na época já soubesse de antemão o que o tempo destrói nas pessoas, e agisse com delicadeza comigo): oi, sou a Inamar, se lembra?; nós fomos sem graça tomar um açaí, nós que éramos os seres mais desbocados do mundo, e depois subimos uns quarteirões até sua casa nova, e ela me apresentou para sua irmã, o que foi uma apresentação estranha porque eu conhecia sua irmã mas sua irmã e eu, talvez fingindo, encenamos que não nos conhecíamos (você precisava ver o Charlles quando era novo, era o menino mais lindo que eu já vira, a Inamar disse, atirando tudo na minha cara barbada e meu cansaço de peregrino que me destruía; aí eu me acendeu que isso poderia ser uma vingança, porque lembrei com um renovado constrangimento a vez em que ela me beijara inesperadamente na floresta do campus universitário e eu tive o descabimento de lhe dizer que foi como beijar minha irmã). E aí ela me pergunta se eu fui para a África e eu respondo que não, e ela se levanta, demora uns 3 minutos procurando uma caixa no raque da televisão, ergue a caixa com sofreguidão e leva para o sofá, e de dentro dela retira umas fitas VHS que ela põe para tocar no vídeo-cassete e eu vejo a coisa mais terna e assombrosa que me reabilita da tristeza, vejo ela vestida com roupas de homem, camisa beje e calças de brim largas, com um microfone na mão aparecendo na tela do televisor, apresentando um programa de televisão em que aparece cercada de crianças, um programa de extrema pobreza visual e orçamentária, e eu olho para ela com os olhos arregalados e já com a boca escancarada para morrer de rir e cair nos braços dela e ela me devolve um olhar de mãe diante seu filho mais querido, seu filho enjeitado com lábio leporino que ela mostra com orgulho e distribui fotos dele por toda a sala para que todos vejam, e daí aparece nas imagens a sua irmã, a irmã que eu conheço mas nós simulamos que não nos conhecíamos, vestida como o Xuxa, loura e desengonçada, que é a estrela da coisa, e nós rimos desbragadamente, na verdade isso me enche de uma adstringência que eu não consigo explicar, as gincanas, as músicas que elas mesmas compuseram e gravaram. Foram dez programas, ela me disse, com direito no último deles à despedida com choro. Ficamos até tarde da noite assistindo a todos eles.

E ontem o Fernando, o médico pediatra, com sua esposa, veio jantar conosco. Encontramo-nos há cerca de cinco anos, em um supermercado, ele que me gritou na fila, veio até mim e me deu um puta abraço, ele de branco e eu de jaleco todo cagado de bosta de vaca e sangue porque acabara de fazer uma cesariana numa vaca (escrevi sobre isso no texto intitulado "Fimose"). Passamos meses só nos falando por telefone, querendo saber onde o outro morava, e nos encontrando esporadicamente em padarias e no hospital onde ele trabalha; como ele era novo na cidade, ele não sabia dizer com precisão seu endereço e, passado um tempo, por ironia, a Dani descobre que ele era nosso vizinho de esquina. Ele desistira da vida na capital, que estava acabando com sua saúde, e fizera o concurso público para médico da prefeitura da minha cidade, candidato único. Desistira de uma vida ensandecida que lhe dava 50 mil por mês, para passar com os 9 mil e quinhentos de seu cargo concursado mais uns atendimentos que ele faz em outra cidade vizinha. Era um leitor voraz e um poeta artesanal rigoroso na nossa juventude, e disso sobrou pouca coisa. Mas nossa conversa sempre é recheada de nonsense e desenvoltura. Ele, assim como todos os outro 4, eram convidados todos os anos, por minha mãe, para meu aniversário, como um ritual. Era sempre surpresa, mas todos nós já estávamos fartos de saber sobre a festa. Minha mãe encomendava o bolo, as comidas, os enfeites, no intuito explícito de me constranger, o cavalão de espinhas na cara e pêlos na mão com chapeuzinho de aniversário, o filhinho da mamãe. E todos davam corda para minha mãe curtindo ainda mais com a minha cara, exigindo que se cantasse a musiquinha e que eu soprasse a porra da vela do bolo, e minha mãe coroava a sangria me dando um beijo na frente de todos e me chamando pelo apelido de infância que ela nunca usava a não ser nessas ocasiões, Naninho isso, Naninho aquilo, e fazia parte da sagração todos se calarem para que ela recontasse os eventos mais diabólicos que o Naninho teve o descomedimento de cometer, a vez em que Naninho entrou no caminhão do pai, o acionou e o grande Mercedes Benz varou a cerca da casa lá embaixo da baixada, tendo-se a sorte de não ter matado e nem ferido ninguém, inclusive o próprio demônio porque Naninha havia pulado assim que percebera a miséria que estava fazendo, e todos caindo na gargalhada olhando para mim; a vez em que Naninho sumira da avó na catedral e fora descoberto na sacristia com o saco de hóstias na mão mandando um a um do corpo de Crista para a boca; a vez em que Naninho subira no sofá, retirara a sua porcaria para fora das calças e mijara na boca de seu tio Pedrinho que estava desmaiado deitado no sofá, e como a sua tia Tânia o protegera da sova da sua vida ao escondê-lo atrás dela para que o tio Pedrinho não o pegasse pela moleira. E assim ia, todas essas coisas relembradas pelo Fernando ontem, para uma Dani deliciada mas para a qual minha própria mãe já havia contado essas e outras histórias.

Daí que depois da janta o Fernando me fala da nova séria de Globo, Justiça, que ele e sua esposa vinham acompanhando, e eu me entusiasmo, visto conhecer o gosto do Fernando para as coisas, mas misso é tema para um próximo post.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Facebookcionismos



Eu poderia dizer que, "a meu favor", eu percebi a grande besteira que estava para se produzir e tomei partido, mas não consigo me vangloriar disso, visto que todos estamos no mesmo Titanic. Eu era ardorosamente crítico ao PT, etc, vide no blog do Milton as discussões em que participei; de modos que todos assustaram com a minha súbita "virada da casaca". Meus amigos acham até hoje que enlouqueci, ou que me tornei alienado. Não é isso: foi algo puramente egocêntrico. Foi tipo aquela história do sujeito que reclama da casa em que está preso e quando tem a oportunidade de abrir uma porta, descobre o abismo. Melhor ficar com o que já tem e ter a maturidade de se aperceber em um grupo_ uma nação_ e batalhar pelas mudanças. E, Nelson, você deve saber o quanto te admiro, etc etc, mas desde meus 5 anos eu escuto esse humor "judaico brasileiro" (eu o chamo assim porque todo humor personalíssimo de um povo, o humor repetitivo compulsivo cujo único tema é a sina desse povo, tem algo de judaico), Jô Soares com a gaiola do pássaro "corrupto", o Chico Anysio, as tirinhas do Piratas do Tietê, e tantas e tantas outras: são quase 40 anos ouvindo a mesma coisa, meu chapa! De modos que eu me vi perguntando: peraí, o humor exige uma catarse que o destrua? Durante quantos séculos vai se rir desconsoladoramente da mesma coisa, da mesmíssima coisa por aqui? Tem um limite em que o otário ficar rindo de si mesmo, de sempre ser um otário, cansa, desespera, dá vontade de morder a testa, espuma a boca. Daí eu ter nojo, repulsa, asco, do nosso judaismo auto-penitente hoje, de nosso passo marcial seguindo alegremente para o holocausto (e aqui a figura que tenho em mente é a da natureza do carneiro em oferecer o pescoço para a faca, uma abnegação chocante e nojenta, e não a Shoá), desse humor sempre inteligente mas que, para mim, não tem mais graça. Eu tive que optar pelo posicionamento. Andei escrevendo alguns textos defendendo o Lula, e fui muito xingado, quiseram me matar. Vi que o relativismo estava fodendo nós todos, nos transformando em assassinos cibernéticos carregados de ódio, de prepotência. Admiro sim o Fernando Horta aí de cima, já compartilhei textos dele, assim como compartilhei textos seus. Talvez eu também o defenestraria porque ser alvo não é mesmo a minha praia, mas o conheci aqui e o cara tem ótimas ideias e uma visão radical cujo radicalismo me espanta por ser radical e não a atitude de procurar a mudança que deveria ser a atitude cotidiana de todos. Mas o Brasil, creio eu, vai voltar a ser o que era (se alguém tiver interesse, meu texto sobre isso se chama "Moral em pareidolia", só digitar isso acompanhado de "Charlles Campos", e pimba, o Google mostra), e a esquerda acabou. Aqui eu repito a frase do Zizék: "com essa esquerda, quem precisa da direita?". Sim, grande parte dessa ruína, principalmente a ruína moral, vem da dita esquerda nacional. Mas quando penso nisso eu me policio e estaco, porque sinto o judaísmo querendo fazer os mesmos discursos clichês, pois penso que agora o brasileiro vai se aposentar aos 70, as desproteinação das leis trabalhistas pretende demiti-lo aos 67 para que não lhe paguem a aposentadoria, seu poder aquisitivo vai desmoronar consideravelmente , e o estado vai ser vilipendiado, e já estão proliferando os Gilmar Mendes, e etc, e etc. E nem o humor mais nós temos, porque perdeu miseravelmente a capacidade de produzir riso.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um texto ruim


                                                                 (phew for a minute there i lost myself ilost myself

Estou num processo de depressão progressiva e minha ação de abrir uma conta no Facebook só fez com que ela ficasse mais grave. Nota-se que minha capacidade de síntese também ficou muito afetada com essa ação, pelo que de imediato se vê na frase acima. Eu abri minha página no F e todo aquele ritual de montagem da minha existência entre os adeptos foi acontecendo, fato que eu contribuí fazendo apenas o que me cabia fazer, que era ficar absolutamente inerte e deixar que o organismo do F fizesse tudo por mim, me incorporasse. Coloquei as fotos que eram para ser colocadas, para que a coisa ficasse minimamente apresentável, algo que executei sem qualquer traço de empolgação, e fui respondendo até onde minha paciência aceitava as perguntas automáticas de praxe. Pronto, eu já tinha um F. Olhei a superficialidade da página, sua grotesca intranscendência, sua gritante breguice, sua fundamental ausência de interesse humano... um desinteresse tão explícito que até quando a máquina me joga suas opções de gelados contatos com outros usuários, ela me informa que fulano "comentou sua foto", pois é aceito irrevogavelmente pelo aparelho que ninguém tem conteúdo suficiente para mostrar a não ser o clichê vazio de uma foto pessoal ortodoxa, sorrisos, poses descoladas, a felicidade em falsete. Pronto, minha impressão amargurada de que ninguém está aí para a porra do outro ficara mais forte. Um bando de coitados tentando ser interessante, inteligente, intrigante, genuíno, charmoso e engraçado. É isso, meu Deus? O quanto eu estou defasado e continuarei assim até a morte, o quanto sou negativo e inadaptável. Acesso meu F, e a jornada se inicia. Antes, a construção de meu quadro de amigos, e, como não deveria deixar de ser, a necessidade de rebater aquele tanto de pornografia e más intenções que se oferecem aleatoriamente para serem meus amigos. Então a coisa está feita. Sento-me à mesa, abro meu notebook, e acesso a minha página do F. É um filme de terror. Um pavor fundo. Não dá para ler nada, para ter a empatia e o recolhimento de angariar algum valor com os tantos posts, os tantos links para matérias da hora, para textos de vários jornais do mundo, para cada oferecimento produzido pelas vaidades retumbantes dos meus amigos do que eles julgam fundamental. Não leio nada; só fico muito tempo puxando o cursor para baixo para dar uma panorâmica em tudo, embora tudo seja uma impossibilidade inalcançável. Não consigo ler mais que 4 linhas de um post. Se um post tem 5 linhas, não leio. Mas, pela boa educação_ uma cordialidade estúpida e sem sentido, visto a extrema velocidade e extrema ausência de concentração da coisa_, eu vou apertando a tecla curtir. No segundo dia, já estou em um debate com vários usuários, falando sobre livros, uma montanha de livros. Parecem-me apaixonados pela leitura, ardorosos pretendentes a intelectuais: mas onde acharão tempo para a devoção aos livros, se, pelo que se me afigura, não saem do F? Entro numa roubada de instalar o aplicativo de conversa em meu celular, e daí mesmo quando estou caminhando meus 10 quilômetros diários a parafernália não para de apitar, avisando das mensagens recebidas. Estou dirigindo, e o celular apita. De madrugada, apita. Onde essas boas pessoas acharão lugar em suas compulsões para a leitura? Alguns almejam a carreira literária, sonham com rebeldias explosivas. Há uma garota que até me espanta com a alta qualidade de seus poemas. Mas cadê o recolhimento? A depressão aumenta. Hoje eu passei cabisbaixo, envelhecido, sem energia. Li as páginas que eu escrevo em meu livro, e de repente parecem estúpidas; a estupidez é tão visível nelas que eu esmoreço, vou tomar um suco, ligo a televisão num noticiário. Me espanta meu conformismo. Tudo bem, se eu não consigo, tudo bem, deixo de lado. A negação da chama, por mais que ela seja pequena. Escrever, ora bolas, para quê? Para quem? Aquela velhas perguntas, só que bem mais fodas, bem mais realistas e acachapantes. Há tantos gênios pelo F.; tantas palavras da ordem, tanta ideia fresca e motivacional. Onde eu caibo nessa? Algumas vezes, quando eu consigo ler um texto inteiro de um desses grandes formadores de opinião de 20 mil curtidas e um milhão de amigos, eu penso: para que o mundo precisará mais do que isso? Esse cara, ou essa mulher, com suas estantes de livros ao fundo, com seus posts anteriores falando o que comeram no jantar, esses bem humorados divinatórios, limpos e perfeitos, asseclas da boa aventurança de um novo lugar comum da saúde midiática, já são o auge do esclarecimento, o que se pode exigir mais do que isso? Eles escrevem com agilidade, graça, ferocidade, tudo muito bem medido, sem pompas, como se eu batesse na porta de seus apartamentos vizinhos ao meu e eles me dessem essa incomensurável demonstração de calor biológico me explicando tudo o que eu não sei, tão acessíveis; e fazem vídeos caseiros complementado o ensinamento, em que um lance de sobrancelhas já tem o poder de ficar nas mentes por meses, abrindo espaços de significância. Literatura para quê? Diante deles, escritores como Dostoiévski, por exemplo, é um completo doente. Imagino o quanto Dostoièvski seria execrado se tivesse um F. Doente, imoral, infeliz, perverso, avesso, desconstrutivista, CHATO. Na verdade, Dostoiévski passaria batido, ninguém se importaria com ele. Mas Dostoiévski é um ponto limite, talvez não sirva como exemplo. O que quero dizer é que isso, esse simpaticismo radiante, me deixa numa tristeza só. Fico pensando se, assim como vemos hoje pela série Madmen o quanto o cigarro era incorporado na vida cotidiana de 50 anos atrás, o F futuramente seria visto como um vício extremamente perigoso que a sociedade não percebia. Porque é de uma aberração sem igual ficar todo o dia e noite acessando o F para ver essa caravana de futilidades, essa procissão de vaidades vazias e recalques desbaratados pela fantasia do conteúdo, essa inadvertida construção de uma nova razão para se ter remorso na velhice pela ostentação de não ter feito. Esse fogo fátuo das ideias. O que me assombra mais é o quanto o F prescinde de toda estética, em sua forma quadrangular, sua descansada admissão de que seus usuários são efêmeros, lembra folhetos de propaganda de supermercados e lojas de eletrodomésticos, aliás, não só lembra, mas é um folder de propaganda contínua; é como cultivar a acachapante ilusão de imprimir o espírito entre as cores aberrantes que anunciam as televisões das Casas Bahia, escrever nos interstícios do vermelho e da foto do homem gozado gritando "esse preço só até sexta-feira" a confissão pura e recolhida no fundo da alma. É uma dificuldade procurar as postagens anteriores do usuário, porque o F não foi criado para ser uma reserva progressiva de conteúdos além daquele do dia. Mas não tenho a esperança e o otimismo de acreditar que vá acontecer algum dia essa lucidez libertária de se perceber o quanto o cidadão atual virou uma besta acéfala, regido por fantasias estúpidas de pertencimento a uma comunidade global, ensandecido pelo puxa-saquismo mútuo de que é um gênio e um grande ser humano; mas não acho que vai ficar pior; o F vai acabar, sendo naturalmente substituído por outras roupagens, e o ser humano vai estacionar em sua afasia, o que tal realidade, pode-se dizer, já está acontecendo agora: o ser humano vai se limitar a ser apenas essa vontade não pragmatizada, esse ectoplasma insuflado pela promessa de que pode ser tudo através de uma masturbação cibernética, sem nunca ser nada. Não se pode dizer que se será cada vez mais inumano, porque a lógica é a inércia harmonizar tudo em um mesmo patamar de ausência de valor. Não seria tão terrível se se pudesse transferir tudo para o universo inaugurado pelo F, se tudo fosse da mesma maneira plástica e de sensibilizações amorfas e instantâneas; mas acontece que o mundo do lado de fora, o que antes era tido por mundo real, vai continuar a existir. Inteligências tornadas peculiares pelo corte da amplitude, ternuras excisadas e altruísmo atrofiado até o desaparecimento, vão propiciar um estado de dominação política e social e econômica que, pelo que tudo indica, alcançará níveis de brutalidade inéditos, em uma miríade de formas. E não haverá nada que poderia reverter essa situação, uma vez os seres humanos terem se tornado o homem apascentado e frouxo predito pelo Nietzsche. Isso são pensamentos de um depressivo, que vê a distopia como a realidade corrente, e que escreveu esse texto ruim. Sempre foi um erro e uma ingenuidade imensa acreditar que a dominação viria após revoluções sanguinárias, baderna e anarquismo, que se proibiria ler livros queimando-os todos para que a população não tivesse esclarecimento, que se arrebanharia pessoas em laboratórios e se as produziria em série; a dominação não veio com a censura, mas com a liberdade total; oferecendo-se livros e música de graça para pessoas distraídas a um nível tão extremo que já não conseguem ler livros e ouvir música. Distraídos da distração pela distração, como disse Eliot. E como ele também disse, o fim do mundo não vem com uma explosão, mas com um murmúrio.