sábado, 27 de agosto de 2016

Barriga



Um grande amigo que está longe me perguntou ontem por celular o que estavam falando aquelas pessoas à minha volta que tanto falavam nesses últimos meses, vociferando, cheias da ira pela justiça, pela compensação e pela vingança. Eu respondi que todos estavam em um grande e constrangido silêncio, como aquela moça deflorada pelo rapaz que se anunciou como o amor de sua vida e que sumiu sem deixar rastros, deixando-a com uma barriga, ou como aqueles gananciosos com fé distorcida na bênção pessoal do acaso que apostam uma grana alta em pirâmides financeiras e são avisados dias antes da quebra total que toda sua grana irá desaparecer. Um vergonhoso e eloquente silêncio que lhes fazem parar o olhar e sair de fininho da cena, e entre os melhorzinhos deles a coisa fica remoendo na cabeça, martelando e zoando na cabeça, sem parar: "e agora?".

Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga



Antes, como todo mundo, eu andava atrás de meus antigos e desaparecidos amigos pela net. Por ter obtido sucesso na procura eu parei com isso. Tenho uns 5 amigos que me eram fundamentais, provado isso pelos sonhos estranhos que eu passava a ter ansiando abraçá-los. Amigos que éramos tão gêmeos no humor, nos gostos, nas angústias, nas promessas, que minha alma sofria muito diante a nostalgia da juventude extraordinária que eles me proporcionaram. Com eles eu tive uma banda de rock, as mais pynchonianas aventuras de viagens e bebedeiras (e passa por aí minha paixão por Pynchon), os amores platônicos em que o bom era quebrarmos as caras para suportá-los mais intensos, as longas e madrugadinas conversas, os projetos mirabolantes, o deslumbre com a literatura. Tive uma juventude plenamente feliz com esses caras; eu tenho a sorte de ter uma estrela imantada que atrai esse tipo de gente. Um deles, desses meus amigos imortais, eu conheci quando pegava o ônibus para o colégio Objetivo; todo dia eu encontrava com seu sorriso ultra-simpático que me causava nojo e sua aproximação para conversarmos, e eu sempre fugia dele até que ele me conquistou. Esse aí é o Marlon, que, há dois anos, achei seu telefone e liguei para ele, com meu coração saindo pela boca, e quando ele atendeu eu fui tão irreverente, tentado recriar nosso ambiente, xingando-o de filho da puta por que sumiu de mim, e ele do outro lado em uma frieza monumental, quase me tratando por senhor. Despedi com um fiapo de voz e considerei que nossa amizade acabara, ou eu continuaria me referindo a ela no passado. Ele mora em uma cidade próxima daqui, algumas vezes pensei em ir lá de surpresa, mas eu tive tantos assombros diante o que o tempo e a vida comezinha fizera com esses meus antes radiantes amigos que desisti. Desses 5 amigos, apenas um conserva uma reserva suficiente do que era antes para que nós ainda possamos nos falar, o Fernando, que veio aqui em casa jantar conosco ontem. Os outros vou falar: encontrei com um no shopping há uns oito anos, e o cara tinha o olhar cheio de um espantoso rancor, o que percebi que ele tinha uma medo pavoroso de descobrir que eu me dera bem na vida, estava melhor que ele; quando nos despedimos no estacionamento, eu vi que ele desmoronava e me odiava para sempre ao ver o carro em que eu estava, e só não falei para ele não se preocupar porque era o carro da minha mãe porque eu estava em estado de choque. Eu fui embora remoendo o pensamento de se eu também me tornara tão babaca e previsível, se em mim todo o frescor e a poesia e a infantilidade de outrora havia sido exterminada e, diante os olhos dele, eu era um ser de uma boçalidade pesada.

Os outros: um virara um comerciante que o riso superficial que ele achara para suplantar o escândalo glótico que era antes sua demonstração diante o espetáculo incerto da vida me deixara em depressão por um bom tempo, reforçado pelo tapinha nas costas e pelo "vamos nos falar hein?, não vamos nos distanciar mais não, meu caro", que me deixou numa imensa broxada (e esse, porra, esse era o que eu mais amava). O outro, o outro apenas virou um pai de família, apenas murchou em seu nicho, com conforto se esvaziou de tudo, esvaziou-se tão hereticamente de toda e qualquer loucura, que me oferecia em sua sempre sinceridade descansada as opções progressivas de conversar sobre comida e o que se poderia fazer a níveis médicos para reduzir essa comida do calibre das veias. (Há dois outros: o Safatle, que me chamou para jantarmos juntos, e que um dia eu irei, e a Inamar, uma amiga minha com o qual eu dividia natais nos quais eu não tinha lugar para ir e passava em sua casa acolhedora, e que eu contava sobre meus planos de virar missionário na África, e ela me contava sobre seu sonho absurdo e meio ridículo, mas que eu a amava demais para nunca ser honesto com ela sobre isso, de ser apresentadora de um programa infantil televisivo. Depois de uns cinco anos a reencontro, quando eu passava minhas tardes de desempregado nos trites cinemas do centro da cidade, e ela me chega pelas costas falando ortodoxamente (como se ela na época já soubesse de antemão o que o tempo destrói nas pessoas, e agisse com delicadeza comigo): oi, sou a Inamar, se lembra?; nós fomos sem graça tomar um açaí, nós que éramos os seres mais desbocados do mundo, e depois subimos uns quarteirões até sua casa nova, e ela me apresentou para sua irmã, o que foi uma apresentação estranha porque eu conhecia sua irmã mas sua irmã e eu, talvez fingindo, encenamos que não nos conhecíamos (você precisava ver o Charlles quando era novo, era o menino mais lindo que eu já vira, a Inamar disse, atirando tudo na minha cara barbada e meu cansaço de peregrino que me destruía; aí eu me acendeu que isso poderia ser uma vingança, porque lembrei com um renovado constrangimento a vez em que ela me beijara inesperadamente na floresta do campus universitário e eu tive o descabimento de lhe dizer que foi como beijar minha irmã). E aí ela me pergunta se eu fui para a África e eu respondo que não, e ela se levanta, demora uns 3 minutos procurando uma caixa no raque da televisão, ergue a caixa com sofreguidão e leva para o sofá, e de dentro dela retira umas fitas VHS que ela põe para tocar no vídeo-cassete e eu vejo a coisa mais terna e assombrosa que me reabilita da tristeza, vejo ela vestida com roupas de homem, camisa beje e calças de brim largas, com um microfone na mão aparecendo na tela do televisor, apresentando um programa de televisão em que aparece cercada de crianças, um programa de extrema pobreza visual e orçamentária, e eu olho para ela com os olhos arregalados e já com a boca escancarada para morrer de rir e cair nos braços dela e ela me devolve um olhar de mãe diante seu filho mais querido, seu filho enjeitado com lábio leporino que ela mostra com orgulho e distribui fotos dele por toda a sala para que todos vejam, e daí aparece nas imagens a sua irmã, a irmã que eu conheço mas nós simulamos que não nos conhecíamos, vestida como o Xuxa, loura e desengonçada, que é a estrela da coisa, e nós rimos desbragadamente, na verdade isso me enche de uma adstringência que eu não consigo explicar, as gincanas, as músicas que elas mesmas compuseram e gravaram. Foram dez programas, ela me disse, com direito no último deles à despedida com choro. Ficamos até tarde da noite assistindo a todos eles.

E ontem o Fernando, o médico pediatra, com sua esposa, veio jantar conosco. Encontramo-nos há cerca de cinco anos, em um supermercado, ele que me gritou na fila, veio até mim e me deu um puta abraço, ele de branco e eu de jaleco todo cagado de bosta de vaca e sangue porque acabara de fazer uma cesariana numa vaca (escrevi sobre isso no texto intitulado "Fimose"). Passamos meses só nos falando por telefone, querendo saber onde o outro morava, e nos encontrando esporadicamente em padarias e no hospital onde ele trabalha; como ele era novo na cidade, ele não sabia dizer com precisão seu endereço e, passado um tempo, por ironia, a Dani descobre que ele era nosso vizinho de esquina. Ele desistira da vida na capital, que estava acabando com sua saúde, e fizera o concurso público para médico da prefeitura da minha cidade, candidato único. Desistira de uma vida ensandecida que lhe dava 50 mil por mês, para passar com os 9 mil e quinhentos de seu cargo concursado mais uns atendimentos que ele faz em outra cidade vizinha. Era um leitor voraz e um poeta artesanal rigoroso na nossa juventude, e disso sobrou pouca coisa. Mas nossa conversa sempre é recheada de nonsense e desenvoltura. Ele, assim como todos os outro 4, eram convidados todos os anos, por minha mãe, para meu aniversário, como um ritual. Era sempre surpresa, mas todos nós já estávamos fartos de saber sobre a festa. Minha mãe encomendava o bolo, as comidas, os enfeites, no intuito explícito de me constranger, o cavalão de espinhas na cara e pêlos na mão com chapeuzinho de aniversário, o filhinho da mamãe. E todos davam corda para minha mãe curtindo ainda mais com a minha cara, exigindo que se cantasse a musiquinha e que eu soprasse a porra da vela do bolo, e minha mãe coroava a sangria me dando um beijo na frente de todos e me chamando pelo apelido de infância que ela nunca usava a não ser nessas ocasiões, Naninho isso, Naninho aquilo, e fazia parte da sagração todos se calarem para que ela recontasse os eventos mais diabólicos que o Naninho teve o descomedimento de cometer, a vez em que Naninho entrou no caminhão do pai, o acionou e o grande Mercedes Benz varou a cerca da casa lá embaixo da baixada, tendo-se a sorte de não ter matado e nem ferido ninguém, inclusive o próprio demônio porque Naninha havia pulado assim que percebera a miséria que estava fazendo, e todos caindo na gargalhada olhando para mim; a vez em que Naninho sumira da avó na catedral e fora descoberto na sacristia com o saco de hóstias na mão mandando um a um do corpo de Crista para a boca; a vez em que Naninho subira no sofá, retirara a sua porcaria para fora das calças e mijara na boca de seu tio Pedrinho que estava desmaiado deitado no sofá, e como a sua tia Tânia o protegera da sova da sua vida ao escondê-lo atrás dela para que o tio Pedrinho não o pegasse pela moleira. E assim ia, todas essas coisas relembradas pelo Fernando ontem, para uma Dani deliciada mas para a qual minha própria mãe já havia contado essas e outras histórias.

Daí que depois da janta o Fernando me fala da nova séria de Globo, Justiça, que ele e sua esposa vinham acompanhando, e eu me entusiasmo, visto conhecer o gosto do Fernando para as coisas, mas misso é tema para um próximo post.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Facebookcionismos



Eu poderia dizer que, "a meu favor", eu percebi a grande besteira que estava para se produzir e tomei partido, mas não consigo me vangloriar disso, visto que todos estamos no mesmo Titanic. Eu era ardorosamente crítico ao PT, etc, vide no blog do Milton as discussões em que participei; de modos que todos assustaram com a minha súbita "virada da casaca". Meus amigos acham até hoje que enlouqueci, ou que me tornei alienado. Não é isso: foi algo puramente egocêntrico. Foi tipo aquela história do sujeito que reclama da casa em que está preso e quando tem a oportunidade de abrir uma porta, descobre o abismo. Melhor ficar com o que já tem e ter a maturidade de se aperceber em um grupo_ uma nação_ e batalhar pelas mudanças. E, Nelson, você deve saber o quanto te admiro, etc etc, mas desde meus 5 anos eu escuto esse humor "judaico brasileiro" (eu o chamo assim porque todo humor personalíssimo de um povo, o humor repetitivo compulsivo cujo único tema é a sina desse povo, tem algo de judaico), Jô Soares com a gaiola do pássaro "corrupto", o Chico Anysio, as tirinhas do Piratas do Tietê, e tantas e tantas outras: são quase 40 anos ouvindo a mesma coisa, meu chapa! De modos que eu me vi perguntando: peraí, o humor exige uma catarse que o destrua? Durante quantos séculos vai se rir desconsoladoramente da mesma coisa, da mesmíssima coisa por aqui? Tem um limite em que o otário ficar rindo de si mesmo, de sempre ser um otário, cansa, desespera, dá vontade de morder a testa, espuma a boca. Daí eu ter nojo, repulsa, asco, do nosso judaismo auto-penitente hoje, de nosso passo marcial seguindo alegremente para o holocausto (e aqui a figura que tenho em mente é a da natureza do carneiro em oferecer o pescoço para a faca, uma abnegação chocante e nojenta, e não a Shoá), desse humor sempre inteligente mas que, para mim, não tem mais graça. Eu tive que optar pelo posicionamento. Andei escrevendo alguns textos defendendo o Lula, e fui muito xingado, quiseram me matar. Vi que o relativismo estava fodendo nós todos, nos transformando em assassinos cibernéticos carregados de ódio, de prepotência. Admiro sim o Fernando Horta aí de cima, já compartilhei textos dele, assim como compartilhei textos seus. Talvez eu também o defenestraria porque ser alvo não é mesmo a minha praia, mas o conheci aqui e o cara tem ótimas ideias e uma visão radical cujo radicalismo me espanta por ser radical e não a atitude de procurar a mudança que deveria ser a atitude cotidiana de todos. Mas o Brasil, creio eu, vai voltar a ser o que era (se alguém tiver interesse, meu texto sobre isso se chama "Moral em pareidolia", só digitar isso acompanhado de "Charlles Campos", e pimba, o Google mostra), e a esquerda acabou. Aqui eu repito a frase do Zizék: "com essa esquerda, quem precisa da direita?". Sim, grande parte dessa ruína, principalmente a ruína moral, vem da dita esquerda nacional. Mas quando penso nisso eu me policio e estaco, porque sinto o judaísmo querendo fazer os mesmos discursos clichês, pois penso que agora o brasileiro vai se aposentar aos 70, as desproteinação das leis trabalhistas pretende demiti-lo aos 67 para que não lhe paguem a aposentadoria, seu poder aquisitivo vai desmoronar consideravelmente , e o estado vai ser vilipendiado, e já estão proliferando os Gilmar Mendes, e etc, e etc. E nem o humor mais nós temos, porque perdeu miseravelmente a capacidade de produzir riso.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um texto ruim


                                                                 (phew for a minute there i lost myself ilost myself

Estou num processo de depressão progressiva e minha ação de abrir uma conta no Facebook só fez com que ela ficasse mais grave. Nota-se que minha capacidade de síntese também ficou muito afetada com essa ação, pelo que de imediato se vê na frase acima. Eu abri minha página no F e todo aquele ritual de montagem da minha existência entre os adeptos foi acontecendo, fato que eu contribuí fazendo apenas o que me cabia fazer, que era ficar absolutamente inerte e deixar que o organismo do F fizesse tudo por mim, me incorporasse. Coloquei as fotos que eram para ser colocadas, para que a coisa ficasse minimamente apresentável, algo que executei sem qualquer traço de empolgação, e fui respondendo até onde minha paciência aceitava as perguntas automáticas de praxe. Pronto, eu já tinha um F. Olhei a superficialidade da página, sua grotesca intranscendência, sua gritante breguice, sua fundamental ausência de interesse humano... um desinteresse tão explícito que até quando a máquina me joga suas opções de gelados contatos com outros usuários, ela me informa que fulano "comentou sua foto", pois é aceito irrevogavelmente pelo aparelho que ninguém tem conteúdo suficiente para mostrar a não ser o clichê vazio de uma foto pessoal ortodoxa, sorrisos, poses descoladas, a felicidade em falsete. Pronto, minha impressão amargurada de que ninguém está aí para a porra do outro ficara mais forte. Um bando de coitados tentando ser interessante, inteligente, intrigante, genuíno, charmoso e engraçado. É isso, meu Deus? O quanto eu estou defasado e continuarei assim até a morte, o quanto sou negativo e inadaptável. Acesso meu F, e a jornada se inicia. Antes, a construção de meu quadro de amigos, e, como não deveria deixar de ser, a necessidade de rebater aquele tanto de pornografia e más intenções que se oferecem aleatoriamente para serem meus amigos. Então a coisa está feita. Sento-me à mesa, abro meu notebook, e acesso a minha página do F. É um filme de terror. Um pavor fundo. Não dá para ler nada, para ter a empatia e o recolhimento de angariar algum valor com os tantos posts, os tantos links para matérias da hora, para textos de vários jornais do mundo, para cada oferecimento produzido pelas vaidades retumbantes dos meus amigos do que eles julgam fundamental. Não leio nada; só fico muito tempo puxando o cursor para baixo para dar uma panorâmica em tudo, embora tudo seja uma impossibilidade inalcançável. Não consigo ler mais que 4 linhas de um post. Se um post tem 5 linhas, não leio. Mas, pela boa educação_ uma cordialidade estúpida e sem sentido, visto a extrema velocidade e extrema ausência de concentração da coisa_, eu vou apertando a tecla curtir. No segundo dia, já estou em um debate com vários usuários, falando sobre livros, uma montanha de livros. Parecem-me apaixonados pela leitura, ardorosos pretendentes a intelectuais: mas onde acharão tempo para a devoção aos livros, se, pelo que se me afigura, não saem do F? Entro numa roubada de instalar o aplicativo de conversa em meu celular, e daí mesmo quando estou caminhando meus 10 quilômetros diários a parafernália não para de apitar, avisando das mensagens recebidas. Estou dirigindo, e o celular apita. De madrugada, apita. Onde essas boas pessoas acharão lugar em suas compulsões para a leitura? Alguns almejam a carreira literária, sonham com rebeldias explosivas. Há uma garota que até me espanta com a alta qualidade de seus poemas. Mas cadê o recolhimento? A depressão aumenta. Hoje eu passei cabisbaixo, envelhecido, sem energia. Li as páginas que eu escrevo em meu livro, e de repente parecem estúpidas; a estupidez é tão visível nelas que eu esmoreço, vou tomar um suco, ligo a televisão num noticiário. Me espanta meu conformismo. Tudo bem, se eu não consigo, tudo bem, deixo de lado. A negação da chama, por mais que ela seja pequena. Escrever, ora bolas, para quê? Para quem? Aquela velhas perguntas, só que bem mais fodas, bem mais realistas e acachapantes. Há tantos gênios pelo F.; tantas palavras da ordem, tanta ideia fresca e motivacional. Onde eu caibo nessa? Algumas vezes, quando eu consigo ler um texto inteiro de um desses grandes formadores de opinião de 20 mil curtidas e um milhão de amigos, eu penso: para que o mundo precisará mais do que isso? Esse cara, ou essa mulher, com suas estantes de livros ao fundo, com seus posts anteriores falando o que comeram no jantar, esses bem humorados divinatórios, limpos e perfeitos, asseclas da boa aventurança de um novo lugar comum da saúde midiática, já são o auge do esclarecimento, o que se pode exigir mais do que isso? Eles escrevem com agilidade, graça, ferocidade, tudo muito bem medido, sem pompas, como se eu batesse na porta de seus apartamentos vizinhos ao meu e eles me dessem essa incomensurável demonstração de calor biológico me explicando tudo o que eu não sei, tão acessíveis; e fazem vídeos caseiros complementado o ensinamento, em que um lance de sobrancelhas já tem o poder de ficar nas mentes por meses, abrindo espaços de significância. Literatura para quê? Diante deles, escritores como Dostoiévski, por exemplo, é um completo doente. Imagino o quanto Dostoièvski seria execrado se tivesse um F. Doente, imoral, infeliz, perverso, avesso, desconstrutivista, CHATO. Na verdade, Dostoiévski passaria batido, ninguém se importaria com ele. Mas Dostoiévski é um ponto limite, talvez não sirva como exemplo. O que quero dizer é que isso, esse simpaticismo radiante, me deixa numa tristeza só. Fico pensando se, assim como vemos hoje pela série Madmen o quanto o cigarro era incorporado na vida cotidiana de 50 anos atrás, o F futuramente seria visto como um vício extremamente perigoso que a sociedade não percebia. Porque é de uma aberração sem igual ficar todo o dia e noite acessando o F para ver essa caravana de futilidades, essa procissão de vaidades vazias e recalques desbaratados pela fantasia do conteúdo, essa inadvertida construção de uma nova razão para se ter remorso na velhice pela ostentação de não ter feito. Esse fogo fátuo das ideias. O que me assombra mais é o quanto o F prescinde de toda estética, em sua forma quadrangular, sua descansada admissão de que seus usuários são efêmeros, lembra folhetos de propaganda de supermercados e lojas de eletrodomésticos, aliás, não só lembra, mas é um folder de propaganda contínua; é como cultivar a acachapante ilusão de imprimir o espírito entre as cores aberrantes que anunciam as televisões das Casas Bahia, escrever nos interstícios do vermelho e da foto do homem gozado gritando "esse preço só até sexta-feira" a confissão pura e recolhida no fundo da alma. É uma dificuldade procurar as postagens anteriores do usuário, porque o F não foi criado para ser uma reserva progressiva de conteúdos além daquele do dia. Mas não tenho a esperança e o otimismo de acreditar que vá acontecer algum dia essa lucidez libertária de se perceber o quanto o cidadão atual virou uma besta acéfala, regido por fantasias estúpidas de pertencimento a uma comunidade global, ensandecido pelo puxa-saquismo mútuo de que é um gênio e um grande ser humano; mas não acho que vai ficar pior; o F vai acabar, sendo naturalmente substituído por outras roupagens, e o ser humano vai estacionar em sua afasia, o que tal realidade, pode-se dizer, já está acontecendo agora: o ser humano vai se limitar a ser apenas essa vontade não pragmatizada, esse ectoplasma insuflado pela promessa de que pode ser tudo através de uma masturbação cibernética, sem nunca ser nada. Não se pode dizer que se será cada vez mais inumano, porque a lógica é a inércia harmonizar tudo em um mesmo patamar de ausência de valor. Não seria tão terrível se se pudesse transferir tudo para o universo inaugurado pelo F, se tudo fosse da mesma maneira plástica e de sensibilizações amorfas e instantâneas; mas acontece que o mundo do lado de fora, o que antes era tido por mundo real, vai continuar a existir. Inteligências tornadas peculiares pelo corte da amplitude, ternuras excisadas e altruísmo atrofiado até o desaparecimento, vão propiciar um estado de dominação política e social e econômica que, pelo que tudo indica, alcançará níveis de brutalidade inéditos, em uma miríade de formas. E não haverá nada que poderia reverter essa situação, uma vez os seres humanos terem se tornado o homem apascentado e frouxo predito pelo Nietzsche. Isso são pensamentos de um depressivo, que vê a distopia como a realidade corrente, e que escreveu esse texto ruim. Sempre foi um erro e uma ingenuidade imensa acreditar que a dominação viria após revoluções sanguinárias, baderna e anarquismo, que se proibiria ler livros queimando-os todos para que a população não tivesse esclarecimento, que se arrebanharia pessoas em laboratórios e se as produziria em série; a dominação não veio com a censura, mas com a liberdade total; oferecendo-se livros e música de graça para pessoas distraídas a um nível tão extremo que já não conseguem ler livros e ouvir música. Distraídos da distração pela distração, como disse Eliot. E como ele também disse, o fim do mundo não vem com uma explosão, mas com um murmúrio.

domingo, 7 de agosto de 2016

Ninho



Minha alma eterna (me permitam que o diga assim), minha alma eterna está me deixando aos poucos e quase estou sentindo sua resignação decepcionada: mais uma casa onde não consegui fazer meu ninho... (Imre Kertész, Eu, um outro)

Gráfico



Eu sempre achei fascinante esse deslumbramento provocado pelo futebol (e outros esportes) no Brasil; basta uns fogos de artifício e umas coreografias para que se instale a impressão de que tudo está bem, de que nosso amor pátrio é intacto e justificadamente alimentado. Essa capacidade que o futebol tem por aqui de despertar o ufanismo acrítico mais retumbante faz ver que esse tipo de dominação está instalada no gene nacional. Na Copa foi a mesma coisa: críticas no começo, daí  vem o time nacional e ganha de algumas seleções pés-de-chinelo, e todo mundo fala que é "a Copa das Copas", esquece-se das mortes recordes com o despencamento de viadutos e trabalhadores da construção nos projetos faraônicos superfaturados, esquece-se da segregação dos pobres arrastados pelas patrolas dos estádios, esquece-se da sempre reinante divindade da emissora de televisão que coloca seus apresentadores de sempre e suas anittas da hora para representar os eventos, na mais abissal encarnação do panis et circenses, de tal forma que a anitta da hora é tida com a unanimidade mais estúpida como uma "grande intérprete da tradição do samba"; aí vem o 7 a 1 e acaba com tudo, esquece-se de se continuar esquecendo o que já se esqueceu e não sobra mais nada senão o mesmo vexame de reconhecermos o quanto esse tipo de coalizão nacional é falho e desproteinizado, volta a ânsia das diferenças e o grande ódio recíproco que infesta a internet, e ficamos com os rabinhos entre as pernas, envergonhados, prometendo a nós mesmos não cairmos mais tão facilmente nesse tipo de engodo, de sermos mais maduros, e aí vem a Olimpíada e se repete os mesmos sintomas, a mesma ciclicidade resumida na fórmula da veneração descerebrada. O brasileiro pode ser colocado em gráficos de mensuração de comportamento altamente precisos e calibrados. Seja quais forem os próximos eventos futebolísticos globais que o Brasil tiver, a situação se repetirá eternamente.

domingo, 31 de julho de 2016

O tradutor cleptomaníaco



O conto O presidente,  de Dezsö Kosztolányi, contido em O tradutor cleptomaníaco, da Editora 34, é um dos cinco melhores que já li. Está no mesmo patamar que Bartleby e O alienista _ trata do mesmo tema destes, a alienação voluntária à grotesca realidade terrena, a "fuga da história". No conto do húngaro, o alto humor pontua a visão fortemente niilista quanto às instituições culturais e científicas; dei gargalhadas ao mesmo tempo em que tive a certeza de que estava lendo uma das críticas mais ácidas contra a estupidez humana. Aqui reproduzo uma das partes mais hilariantes do conto, em que o personagem Kornél Esti descreve a singularidade dos alemães:


"Um mundo novo se abriu diante de mim. Assim que meu trem rolou em trilhos alemães, passava de uma surpresa para a outra. Pode-se dizer que estava sempre de boca aberta, a partir do que meus companheiros de viagem deduziram que eu era um débil mental. Ordem e limpeza em todo canto, nos objetos e até nas pessoas.
        Desci a primeira vez num pequeno balneário, para lavar a poeira. Não precisei perguntar para ninguém onde era o mar. Nas limpas e varridas ruazinhas, precisamente a cada dez metros, havia um elegante poste, nele uma placa branca esmaltada, com uma mão que aponta, embaixo a inscrição: Caminho para o mar. Seria impossível guiar melhor um turista. Cheguei ao mar. Lá, fiquei um pouco pasmado. Na areia, a um metro da água, um poste um pouco mais alto, mas totalmente parecido com os anteriores despertou minha atenção, e nele, uma placa branca esmaltada, um pouco maior, mas totalmente parecida com as outras, com esta inscrição: O mar.
          Para mim, proveniente de um lugar latino, parecia-me a princípio totalmente desnecessário. Pois uma agitada imensidão espumava diante de mim, e era óbvio que ninguém poderia confundir o Mar do Norte com uma escarradeira, ou com uma lavanderia. Mais tarde reconheci que me enganara na minha superficialidade juvenil. Era justamente nisso que estava a verdadeira grandeza dos alemães. Isso era a própria perfeição. A inclinação dos alemães para a filosofia exigia que concluíssem a tese e apontassem o resultado, como muitas vezes um matemático escreve numa demonstração que 1 = 1, ou na argumentação lógica, em que muitas vezes se constata que Pedro = Pedro (e não a Paulo).”