sábado, 25 de fevereiro de 2017

À caça de Nabokov



Dois pequenos textos meus sobre Nabokov, inclusive em que ele não aparece bem, e eis-me atacado por uma obsessão inesperada por esse autor que eu julgava entre os nomes do meu segundo time. Estou lendo frouxamente Lolita no original_ aquelas últimas páginas de um romance de concentração tão extrema são irretocáveis_, e vendo, mais uma vez admirado, o quanto Nabokov era destemidamente pródigo no uso de adjetivos. Em cada frase ele usa uma profusão deles. Para cada conceito e observação e descrição, ele os envolve com adjetivos que, na contramão da severa ortodoxia novecentista da escrita, soam assertivos, inteligentes e deslocadamente histriônicos. Borges também adorava adjetivos, escritor que se aproxima muito de Nabokov. Agora começa minha batalha pessoal de como encontrar todos os livros publicados aqui de  Nabokov. Tenho Fala, memória, Contos Reunidos, Fogo Pálido, Lolita e A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, além do volume de aulas sobre literatura russa. Quem estiver lendo isto aqui e quiser me vender algum outro, podemos fazer negócio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A verdadeira vida de Sebastian Knight



Terminei hoje A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov. Como tudo relacionado a esse autor, estou bastante embevecido mas com uma indeterminada impressão de logro. Tem partes tão maravilhosas e belamente escritas que, sem dúvida, é a melhor coisa que li dele: mas não muito, fica um tanto apenas acima das memórias e dos contos. Embora não seja tão exuberante quanto Lolita, é nítido o ébrio e inatacável deleite que movia o autor em seu ofício. Nabokov escrevia com incrível alegria; imagino o estado em que deveria ficar quando encerrava o expediente, com a nítida certeza de ter vencido o mundo ao qual não sem espanto tinha que retornar após a recolhida labuta. Aliás, aos grandes escritores como Nabokov não cabe a palavra "labuta"_ nunca caí nessa mentira de que a escrita para eles é um martírio. Ele brinca, ri como um louco excessivamente inteligente, se entrega a todos os tipos de descomposturas: é uma criança em sua própria órbita, em que nada fora dela tem a ver com ele. A impressão de logro é suscitada pela adivinhação de que para ele bastava esse jogo estético intrincado, essa música em que fazia sua desforra com toda a escrita tão disciplinadamente estudada em seus intensos anos de leitor. Há uma suspeição de falta de experiência espiritual que tornaria a arma de seu talento incontestavelmente legítima, e por isso o que o leitor vê é uma vingança sistemática contra todos aqueles escritores cuja a História não privara do exílio purificador, contra todos que não foram atirados ao confinamento mais estúpido de todos em um Estados Unidos que nada poderia oferecer ao espírito, como ele o fora. Lendo esse romance, compreendi melhor as 200 páginas de road-movie, sem sentido e gratuitas, em Lolita, em que se pretende retirar a película de intranscendência da paisagem americana e tentar inutilmente ver alguma redenção nos hotéis de beira de estrada e nas cidadezinhas afundadas em uma chuva entediante e estupidificadora: ali Nabokov tentava chegar à frente do ambiente carregado de generosos significados de seus gloriosos conterrâneos falecidos em um país que não mais existia e do qual ele fora expulso sem tempo de reavaliar suas sensíveis novas diretrizes: seus amados Tolstói e Turguêniev, e seu farsescamente admitido como adversário impróprio, Dostoiévski. Há uma certa tristeza por detrás dessa felicidade narrativa inexorável, a mesma tristeza que derruba o observador enternecido com a prodigiosa imaginação de uma criança solitária. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O deus abandona o sr. Flibas (pequeno excerto)






Não havia um dia nesses últimos anos em que o sr. Omeno Flibas não acordava antes de que o relógio despertador soasse as seis horas da manhã, e se punha a ficar em um imóvel e aparente estado de pânico debaixo dos lençóis, atirado nos mais desalentadores pensamentos. Aguentava o passar das horas a ponto de a surpreender em pleno estado de lucidez: suportar o tédio parecia ser seu atributo mais corriqueiro, senão o único, de maneiras que se achava preparado para fechar o ciclo de sua existência de sete décadas e meia com esse resumo sucinto de vida.Também tinha outra coisa: como um clichê a ser repetido daquele filósofo grego vacinado da astúcia que no final assumiu não saber nada, contraditória e tolamente tendo morrido em nome de um conhecimento em que não acreditava, da mesma forma o sr. Flibas sentia o peso de uma nunca alcançável verdade pairando sobre si, montado sobre seus ombros e dali não saído mais. Não tinha mais os tantos livros que costumava levar tão zelosamente para todas as residências em que tentara estabelecer o preâmbulo do seu lar permanente; havia aberto mão da grande maioria deles, muitas vezes com um pouco caso forçado que anos antes lhe teria partido o coração, dado alguns para pessoas cuja incorreção era flagrante não por seus fracos vínculos de amizade mas porque as chances seriam bem poucas que algum dia fossem lê-los; ou esquecera alguns propositalmente em taxis, em hotéis, em praças; uma vez deixara em um sobressaltado sossego por sobre a lápide de sua esposa um volume do que para si justificava o abandono ser a filosofia teutônica oitocentista que já lhe perdera o sabor e a relevância, não sabia se aquela sumidade pomposa que teria suas estruturas caóticas disfarçadas de ordem geométrica molhadas pela chuva sido da escola dos românticos ou dos ultra-realistas. Certa vez, sem a graça de possuir a exultação do milionário abnegado que deixara sua herança em vida para desconhecidos, simplesmente jogou uma de suas edições mais preciosas numa cesta de lixo quando voltava por uma rua vicinal até sua casa. O que lhe parecia estranho era que ninguém dera por falta de seus livros; nenhuma das pessoas que faziam parte de suas rotinas a ponto de algum dia terem se detido mesmo que distraidamente na constatação de que era um senhor que vivera em função deles_ seu filho e sua filha, alguns ocasionais colegas de trabalho que visitaram sua antiga casa_, dera pela falta das filas de lombadas irregulares, couros de tantos animais sacrificados servidos para manufaturar aquelas crepusculares vestimentas de proteção, que não desvirtuava a elevada sensação de uma opressiva cercania espiritual que não poderia ser ignorada. Ou eles sabiam que após ter que abandonar sua casa, a casa onde ele e sua esposa viveram em retrospectiva e re-avaliativa harmonia por tantos anos, a dor da readaptação da viuvez em ambientes constrangedoramente menores e com o adendo de novas companhias, sem os livros, seria tamanha que o silêncio sobre a questão era a melhor e mais compadecida das escolhas. Ou eles simplesmente eram como a maioria reinante sobre o planeta: achavam que aqueles tomos eram tão falhos na aquisição da verdade que a massa que formavam de ignorantes de divinatórias onisciências, condutoras reais e sem firulas da força da história, os desprezavam a ponto de não lhes darem nem a mínima catalográfica importância. Havia se livrado deles, que bom.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Hope

Ainda existe muita bondade humana. Não é época para a depressão e perda da esperança. Vejo bondade de pessoas que não conheço dirigidas a mim cotidianamente, as mais sutis e menos perceptíveis, que revelam algo profundamente bom. Esses dias eu ando esmorecido com tanta barbárie que está acontecendo; e hoje, na rua, um homem negro, cego de um olho, maltrapilho, alto, à sua maneira belo, me chega e pede dinheiro. Ele tem um sotaque ou uma deficiência na rapidez da fala que me faz pensar ser um refugiado, o que é estranho na pequena cidade onde eu moro (e que é também estranho eu nunca tê-lo visto). Eu demoro a entender que ele me pede dinheiro, e quando o faço algo no meu inconsciente associa idiossincraticamente a sua erradia nobreza com a disparate de estar precisando de dinheiro. Dou-lhe o que tenho, que acabo de guardar na carteira, muito pouco, mas para ele, não sei mesmo por quê, parece ser um milagre. Ele me aperta a mão e diz muitas coisas, muitas bênçãos, me acompanha pela metade até meu carro, e sai cantando feliz da vida pela calçada. Absurdamente belo. Sinto uma vontade enorme de ir com ele e fazer-lhe todo tipo de pergunta. Não, o sujeito bom aqui não sou eu, não estou de maneira alguma dizendo isso. O sujeito bom é ele. Sua leveza e sua nobreza me contagiaram e me alegraram o dia. Me fez pensar na máxima do Dostoiévski, de que "a beleza salvará o mundo". Um carro de som pelas ruas do Espírito Santo tocando "Imagine", uma música tola e que pouco tem a ver com a situação, mas como é comovente, libertador e um farol de esperança ver a cena. Como é arrasadoramente belo. Como é inevitável que eu pense que esse negro cego é Cristo. Mesmo que tudo em mim, até minhas mais recônditas sinapses, saiba que não é; e que um de meus múltiplos eus insilenciáveis cogita que pode ser um criminoso, um ser mal dissimulado. Mas a beleza é absurda, o ser humano é absurdo, e sempre quando estou no melhor e mais lúcido de mim eu tenho certeza de que o absurdo é que salvará o mundo. Por isso, tenho a mais clara certeza de ter me encontrado com Cristo hoje.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O que importa



Eu sempre meio que repudiava fotos de famílias. Achava-as egoístas, porque pretendiam mostrar uma felicidade nuclear reservada, que necessariamente para manter seu poder excluía o que estivesse de fora. Mesmo depois de ser pai e compreender, ainda se conserva em mim um resquício de policiamento. Mas como eu disse, eu compreendi: o tipo de compreensão que está tão incutida em mim que se tornou um puxão de orelha quando eu penso fora dela, quando eu simulo que eu ainda não sei. Não tem nada disso: o frescor dos meus filhos e o meu sorriso e a proximidade deles e da Dani em vez de me isolar me lança mais para fora; em vez de me fazer achar que eu tenho algum privilégio exclusivo, me deixa agraciado por essa felicidade ser tão natural, tão constitutiva de meu ser e de minha espécie, tão simples e fácil. É isso que essas pessoas que aportaram generosamente em minha vida me deram: a simplicidade e a facilidade. É uma antídoto revigorante e maravilhoso!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre vacas pichadas e o hino nacional



Nunca fui um leitor diletante. Não via no fato de gostar de ler nem o mais leve sinal de que deveria propagar o gosto pelos livros nas outras pessoas. Eu sempre soube que a leitura deixa a inteligência turbinada e proporciona novos ângulos de visão, e a fazia em meu canto, recolhidamente. Pelo contrário do que algumas pessoas achavam, eu sentia era uma espécie de vergonha quando me viam com livros (e me veem toda hora com livros); quase comprei um leitor digital para que pudesse, assim, ler em filas de bancos e em praças públicas sem despertar a impressão de que eu era um alienígena ou um esnobe. Certa vez, no campus da universidade, eu estava deitado num banco no bosque, durante o horário de almoço, e fui flagrado lendo "Visível escuridão", do William Golding. Meu colega pegou o livro e o revirou nas mãos, caçando o segredo da funcionalidade daquilo, e me devolveu com um ar de pânico_ depois disso seu comportamento comigo mudou em definitivo; ele me evitava, falava comigo como se eu fosse um idiota ou uma criança. Meus ambientes na vida nunca foram literários ou intelectuais: esse colega, um japonês, era o primeiro da classe de veterinária, e refletia milimetricamente a impermeabilidade a toda coisa que não fosse a doutrina da produção e aquisição de dinheiro e status social. No curso de veterinária eu via o martírio inglório que era para um velho espanhol ter sido incumbido de dar aulas de filosofia e deontologia; era como ensinar sutilezas para feras cujos hormônios da discórdia, do tédio e do deboche estivessem no auge. Ele fingia que não via os ares gerais de que aquilo era papo de afrescalhados e levava a obrigação com astúcia, deixando que colassem deliberadamente nas provas e evitando o máximo de profundidades possíveis. Eu mantenho até hoje a convicção sem fundamento de que aquele professor era uma espécie de párea na universidade, cujo pagamento por algum obscuro crime administrativo impôs que ele enfrentasse aquele inferno. Pode parecer que gente como eu, afrescalhada e meditativa, tenha sofrido no curso, mas não. Desde muito cedo eu me decidi que não iria seguir a carreira acadêmica e nem o humanismo ortodoxo: a leitura para mim é indissociável ao prazer, e como eu sou um leitor inveterado que leva o vício aos extremos do sagrado, seria uma tortura ter que me ocupar de títulos de autores que não me diziam nada, mas que aos quais teria que entregar a vida para ter êxito profissional. Sendo assim, eu me mantinha bem em meu núcleo de observação segregado. Quando aguentava, eu ria com eles e os acompanhava em festas, quando não, apenas observava. Uma vez picharam com mata-bicheiras uma vaca doente, escreveram palavrões, apelidos, no corpo dela. O professor, um sujeito caricaturalmente doutoral que ensinava cirurgia em grandes animais, que pegava alunas e venerava como a um bezerro de ouro os alunos que chegavam em grandes caminhonetas, ria com aquilo, em silêncio. Era o fruto do deboche com a deontologia. Eu ficava pensando onde esses colegas estariam dali alguns anos; se seus sonhos fanatizados acalentados em uma instável segurança fervida no banho-maria do desespero seriam concretizados. Uma vez vimos o professor de equinocultura chegar à faculdade em um fusca, e um dos que estavam do meu lado se arrepiou em uma comoção mística; seus olhos se arregalaram de tal maneira como se um ponto dimensional tivesse se aberto diante deles, e ele proferiu em tom de reza devota: eu não estou estudando para isso. Muitos anos depois, quando precisei ir ao prédio da faculdade pegar um xerox de um histórico colegial para que pudesse me matricular no curso de história, encontrei um dos machos alfa da turma, parado com sua camisa xadrez e seus jeans da cultura sertaneja diante a porta de entrada. Ele me deu um cutucão e me estendeu a mão, mas eu demorei reconhecê-lo. Estava com uma calvície esplêndida que se ajuntava à transformação física total em identificá-lo com o fenótipo de um grande fazendeiro: sua materialidade transbordava pelos botões da camisa, sua pele tinha a lisura juvenil inchada do uísque; mas ele estava bem mais doce do que o portento sexual que subira em um dos bancos em certa tarde e declamara para uma garota uma poesia improvisada da qual me lembrava por ele tê-la comparado à "sétima sinfonia". Eu apertei-lhe a mão embasbacado, pensava que a natureza não deveria ter feito isso, que era um insulto tal deformação em um cara que era muito bonito, uma espécie de Rick Martin viril e Dennis Quaid infalível, sem pompas e brutalmente elegante. Seus olhos mostravam a rendição, o quanto se tornara bovinamente maduro. Não estava em uma caminhonete, mas em um carro popular. Era vendedor de produtos agropecuários e rodava o estado todo. Ficamos conversando um tempo; quando lhe disse que meu propósito ali era pegar documentos para cursar história, ele concordou com a cabeça e me disse sinceramente que era uma excelente coisa. Voltei a ver alguns colegas pessoalmente, e pelo Facebook. Nada aconteceu com eles que sugerisse o extraordinário. O japonês se casou com uma colega nossa de sala, e posta fotos com cãezinhos em algum lugar do sul, onde trabalham em uma empresa de nutrição animal.

Tergiverso. Pouco encontro leitores na vida real. Uma vez vi uma moça lendo Doze contos peregrinos no ônibus. Fiquei olhando-lhe os cabelos. Já vi um cara cruzar por mim com um Beckett na mão; voltei para vê-lo pelas costas. Uma vez eu fui surpreendido: desci do ônibus e fui seguido por uma moça sorumbática, loura e linda, que me abordou dizendo que sempre me observava porque eu era a cópia física de um ídolo dela. Perguntei quem? e ela me respondeu Robert Smith, do Cure. Eu ri e disse que lamentava por não ser o Dostoiévski, num ato de esnobismo ridículo e totalmente involuntário, do qual meu subconsciente em alerta decretou que eu havia destruído por completo qualquer possibilidade com ela. Na primeira conversa tu lhe tasca um Dostoiévski. ó ser deplorável. Daí, para minha extrema surpresa, ela começa e discorrer que eu teria que ter bem menos cabelos, uma barba rala, e um olhar destruído pela epilepsia para atingir meu objetivo. Foi um dia de sonho, frio, insípido e atonal, dos que são meus ambientes espirituais perfeitos, e eu estava andando com uma moça linda de olhos azuis que, pelo que tudo indicava, estava me cantando. Se ela lesse Dostoiévski, tudo estava perdido, eu não iria suportar. Eu nunca me dei bem com as mulheres, sempre me policiei pela tendência à ignobilidade e à síndrome do capacho. Perguntei, fremente, se ela lia Dostoiévski, e ela me respondeu sobre qual livro dele eu gostaria de falar. Eu deveria ter juntado as coisas: Robert Smith, Desintegration, existencialismo... Dostoiévski. Falamos durante o percurso sobre Crime e castigo, eu sentindo que ela maneirava a coisa para não me humilhar. Ela fazia música, piano. Sobrenaturalmente, morava a uma quadra de mim, mas eu nunca tinha visto ela. Cheguei em casa destruído, ciente que estava em um grau instantâneo de paixão irrecuperável. Ouvi o Desintegration, que na época era um dos meus álbuns preferidos, comprado o vinil nas Americanas, e fique horas no espelho notando que, porra, eu era mesmo a cara do Robert Smith e nunca tinha me dado conta disso. Pintei meus olhos com lápis preto, espetei os fartos e longos e desgrenhados cabelos que tinha na época e, porra, me parecia pra caralho. Ganhei a menina. Li avidamente o que eu tinha do Dostoiévski e no outro dia, assim como pelos outros dias, ficava a procurando no ônibus. Estava desconsolado e já desmotivado, quando, indo para o ponto, ela se aproxima pelas minhas costas e me dá um tapinha com um oi. Eu abro o maior sorriso infantil do mundo, destruindo as horas de treino em ser smithianamente taciturno, e lhe gaguejo uma série de frases sobre onde ela andava, que eu a tinha procurado, etc_ enfim, nada que Robert Smith diria. Falamos até quase chegarmos ao ponto, e ela abre uma pasta e me entrega uma partitura, dizendo que quando a tocava no piano lembrava sempre de mim. Pegamos ônibus diferentes, porque eu tinha que ir a uma aula na praça, e quando me sento vejo que a partitura é do hino brasileiro. De imediato me cai uma certeza terrível, que me revela o quanto nesse mundo diante a felicidade se ergue uma sequência atroz de barreiras: ela é louca. Analiso a evasão do seu olhar, sua incapacidade de sair da introspecção inteligente; a maneira como fala e não me ouve; um pulsante desespero submergido pela química que não a deixa ser natural. A encontro nos outros dias, e vejo claramente a confirmação de minhas suspeitas. Uma vez passo pela casa dela e uma moça muito parecida com ela mas cujas feições são dotadas de linhas bem menos sublimes, mais comezinhas e pragmáticas, me acompanha e me conta que sua irmã sofre de distúrbios mentais sérios, que ela está em tratamento, que ela realmente cursa música e é extremamente talentosa. Fala essas coisas com uma naturalidade de alguém acostumada com a realidade burlesca; também nisso deve ser um rascunho inverso da irmã, sem nenhum talento para a música e a leitura, alguém cujas contas de luz e a formação profissional suplanta qualquer perda de tempo com Dostoiévski. E ela não fala com a preocupação de que eu possa fazer algum mal à irmã, que eu seja sequioso e aproveitador, ou me alertando para que com pessoas como a irmã eu não deva me envolver emocionalmente. Vou com ela_ seu nome, a da moça linda e música que pensava em mim em momentos em que deveria se plantar em pé com a mão patrioticamente no peito, era, é, não sei, Inamar_, uma vez a uma reunião em que ela pleiteava uma bolsa para completar os estudos na Rússia. Depois desse dia, nunca mais a vi. Na verdade, eu evitava vê-la; me sentia muito sozinho ao lado dela; me sentia tão depressivo quanto ela deveria se sentir, quando fechava a tampa do piano à noite e era conduzida para o momento das pílulas pela mão prestimosa, severa e acolhedoramente terrena da irmã, e depois era colocada nocauteada na cama. Imaginava o quanto sua beleza deveria ficar destruída nesses momentos, o quanto a pele rósea deveria ter algo de paquiderme, de bicho atocaiado pelo medo; os murmúrios sem charme, a posição assináptica do corpo.

Na verdade não sei por que escrevi esse texto hoje. Perdi o sono às 3 da manhã. Tem temporadas que sofro de desespero noturno e perco o sono. De noite tudo me parece sem esperanças e sem propósitos, e vejo até as pessoas que não gosto com profunda piedade. Semana passada acordei de um sonho recorrente, o de que sou só. Suportei a solidão por muitos e muitos anos, e acho que perdi o jeito completo da coisa, não suportaria mais ser só. Acordo disposto a chorar como um garotinho desamparado desses sonhos, e a tristeza que sinto é horrível. Mas, o propósito desse texto, se é que ele tem algum, foi motivado pela alegria de ver leitores reais pelo universo cibernético. Hoje uma amiga me disse que ficou totalmente tocada pelo Origem, do Thomas Bernhard, livro que eu lhe indiquei. Ela chorou, riu, e se emocionou profundamente com esse livro único. Assim vamos, fragilidade; a arte está aí para mostrar o quanto somos frágeis e inadequados para a solidão. O quanto somos um coletivo, ainda que só nos encontremos com a identificação em efêmeros momentos aleatórios, dispersos pelo tempo e pelo espaço, e o quanto estamos de alguma forma seguros mesmo nessa sucessão deplorável de esperanças infundadas e desconexão espiritual. Me lembro agora do velho Nietzsche, quando disse que nossas naus, após tempestades e desencontros e infernos múltiplos, estão destinadas a se encontrarem, sempre e inexoravelmente estão destinadas e se encontrarem, em algum lugar em um futuro cósmico. Se até o mais ferrenho niilista apostava nisso, quem sou eu para discordar. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A pior tradução brasileira





A decepção foi enorme. Comprei uma série de livros na Fnac esse mês, entre Brecht, Kafka, Agatha Christie..., e juntei uma edição nacional de Oliver Twist no monte. Eu havia lido O adolescente e, como é de praxe nos inícios de ano, estava sedento por ler os autores do século XIX, que, nesse período do ano (e em vários outros também), me assola a certeza de que foram os melhores da literatura. Estava tão empolgado que meu senso crítico ficou suspenso, pois li que a tradução era de Machado de Assis, que em certa altura havia desistido dela, e completada pelo Ricardo Lísias. Outro erro terrível foi me deixar levar pela capa: o livro é lindo, em formato de bolso e com capa que faz honras ao universo de Dickens, com uma foto antiga de Londres, lançado aqui pela editora Hedra (uma editora digna, por sinal, que tem em seu catálogo coisas como o Diário de escritor de Dostoiévski). Foram erros porque me esqueci de fazer a pergunta capital: grandes escritores são bons tradutores? Se tivesse feito essa pergunta que todo leitor treinado tem obrigação de fazer quando detêm um volume desses em mãos, não teria caído no engodo. Alguém fala sobre as traduções que Borges fez de Faulkner (a maioria dos leitores de Borges sequer sabe disso)? Saul Bellow é conhecido pelas traduções do iídiche para o inglês que fez de Isaac Bashevis Singer? Dostoiévski é lembrado pelas traduções de clássicos juvenis franceses? A resposta é um fatídico e encerrado não, o que teria resolvido a questão sem traumas e teria me economizado uma bela grana.

Tendo-o comprado, de imediato meu subconsciente assoou um alarme fraquinho mas contundente, e desde quando saí da livraria eu sabia que tinha feito besteira. Estava viajando sozinho e na lanchonete onde comi os pães de queijo, a 100 quilômetros para chegar em casa, me enganava prevendo as horas acolhedoras em que breve estaria com esse Dickens nas mãos, e no fundo aquela certeza tranquila de que seria algo inviável. Eu me ria calmamente de mim mesmo. Chegando em casa li o prefácio do Ricardo Lísias. Fui tomado por uma ira que me faltou jogar o livro bem longe, o que não fiz apenas porque isso daria uma importância desmedida ao objeto e porque o eu que se ria de mim mesmo balançou a cabeça me desobrigando de tal dramalhão, já que na verdade eu sabia desde o início o que fiz. Acho que foi 55 reais, foi isso. 55 reais jogados fora. Pensei em dar o livro para algum amigo, mas aí seria insultante e pouco ético. O que fazer com aquilo? Ao menos servia para consolidar duas certezas: ali estava o livro em minha biblioteca que eu poderia afirmar peremptoriamente que jamais leria; e de que ali estava, enfim, a pior tradução brasileira. Não se precisaria queimar a pestana, para ficarmos com uma expressão corriqueira da época saudosista na qual eu queria me afundar, com a questão de qual tradução feita no Brasil: era esta, a de Oliver Twist, feita pelo Machado de Assis e pelo Ricardo Lísias. (Restava agora ler Ricardo Lísias, para ver se ele entrou mesmo que erraticamente para o grupo dos grandes escritores com aquele rito da tradição em ter feito uma tradução que deveria ter sido definitivamente esquecida.) (E um adendo: a intenção da Hedra, pelo visto abortada, se firmava em uma nobreza ingênua e deletéria, que era justamente uma coleção de traduções feita por escritores relevantes!!!)

Vou explicar: Lísias diz, timtim por timtim, o que Machado cometeu. Machado usou uma versão francesa da obra; Machado cortou parágrafos e páginas inteiras do original; Machado resumiu parágrafos inteiros em toscas 3 frases; Machado incluiu de próprio punho frases explicativas no texto; Machado excluiu a ironia e o sarcasmo dickensianos, substituindo-os por composições retilíneas para, no que parecia sua intenção, tornar a coisa assimilável para o leitor brasileiro. E o pior disso tudo? O pior?? (Puta merda, me dá uma vontade de rasgar a desgraça do livrinho agora). O pior meus amigos... é que Lísias conta isso tudo como se esses crimes fossem primores da genialidade de Machado de Assis, o grande escritor brasileiro! Lísias faz um texto bonito, sério e bem acabadinho, em que firmemente diz que tais estupros machadianos são feitos que devem causar êxtase no leitor, por este estar de frente a uma peça histórica de evidência incontestável da genialidade do autor brasileiro. Lísias parece desconhecer, em um nonsense que beira Monty Python e uma versão inversa de Pierre Menard, que Oliver Twist foi escrito por um inglês chamado Charles John Huffam Dickens, e não pelo totêmico autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Todo o texto de Lísias é uma obra-prima do indutor do ódio no leitor que comprou o livro pela razão óbvia de querer ler Dickens, pois trata absurda e unicamente de Machado de Assis, com notas comparativas de que também Machado escreveu um romance de folhetim, e que Machado tal e tal coisa, e que Machado aquilo outro. Que lapso cerebral grave Lísias sofreu para achar que alguém iria comprar Dickens querendo ler Machado? E, para coroar a coisa, Lísias diz algo no estilo de que foi uma grande responsabilidade completar a tradução de Machado, mas que abriu oportunidade para também ele ser criativo na tradução (!!!!!). Minha ira era tanta que eu queria dizer essas verdades para o Lísias, e daí me veio a revelação que eu não estava mais na década de 1980 e podia fazer isso, que eu tinha um Facebook e inclusive tinha amigos ali que eram seguidores dele. Liguei a máquina e teci um texto longo, podado o máximo possível de paixões e equilibrado o máximo que minha etiqueta social permitia, e enviei para Lísias. Ele, horas depois, "aceitou minha solicitação de amizade". Que diabos era isso? Eu mandei uma mensagem para ele e em resposta ele aceita minha amizade? Devo ter feito algo de errado e a mensagem não chegou, porque eu sou muito burro em questão de Facebook e porque, acima de tudo, não havia as tais linhas quebradas no final do meu texto que indicavam que o receptor as recebera.

Machado de Assis mutilou o livro de Dickens porque achava que o brasileiro não compreenderia as sutilezas e ironias. O que se pode dizer sobre isso? O livro mais popular da época, traduzido em todo o mundo?

Uma obsessão da minha família, creio já ter dito isso antes, é a instrução. Minha mãe me colocou cedo no CCAA, assim como minha filha Júlia, de 6 anos, já está no terceiro semestre de inglês. Fiz oito anos de inglês; fiz um ano de francês e saí porque não suportava a língua. Aprendi espanhol lendo os autores espanhóis e hispano-americanos não traduzidos aqui. Li os principais romances de Bellow no original, após lê-los em tradução nacional. Li Conrad, e li The Pickwick Papers, e 3 dos meus livros preferidos de Faulkner, no original. Lia mais em inglês antes de me mudar para o interior e perder bastante a ginga para o idioma. Mas eu não gosto de ler em outra língua que não seja o português. Não é a mesma coisa. A coisa não flui, meu lado escritor não aprende se não for em português. Descobri que não existe tradução decente de Oliver Twist para o português. O texto mais acessado deste blog é o que trata das prostituições feitas nas traduções de Dostoiévski, mas vejo que Dickens foi bem mais mal tratado por aqui do que o russo. Isso de achar o leitor brasileiro inapto à compreensão parece ser um mal entre alguns tradutores. Recentemente li em uma tradução de um badalado romance norte-americano a letra de uma canção do Legião Urbana no diálogo entre dois personagens. Isso, para mim, é sinal de adulteração grave, de subestimação da inteligência do leitor. Uma das minhas constatações mais valiosas é de que no Brasil existe uma grande quantidade de ótimos leitores. O brasileiro padrão não lê, mas o brasileiro que lê é um engajado e lê bastante (se não fosse assim, não haveria explicação do por que o mercado editorial brasileiro é um dos mais ricos e atuantes do mundo). Não é o caso de cobrar respeito, porque temos ótimos tradutores, mas, talvez, o caso de cobrar humildade, e nenhum ufanismo.