sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre nada


um antro já por si loteado por tudo que havia de criminosos defensores do direito de perpetrarem todo tipo de abominações autorizadas pelo costume. Aqueles que acreditam em sensibilidades do espírito não sabem a força que tem esses ambientes para tornarem fortes os estômagos; foi preciso duas visitas apenas a uma casa modelo do comportamento da região para que minhas ideias humanistas da universidade começassem a ser apagadas. Da primeira delas ainda permanece nítido em minha memória o olhar da menina rejeitada dirigido a mim do canto da distante porta da cozinha, enquanto seu pai, cujo conhecimento geral das barbaridades que impunha a ela me chegaria no trajeto de volta por meu assistente, falava com educação puritana o quanto vacinava seus bezerros e organizava primorosamente seus documentos oficiais com o estado. Era de uma assepsia de maneiras exemplar, os movimentos ponderados das mãos, encostadas gentilmente uma sobre a outra, remetendo a algum indeterminado manual de etiqueta do justo patriarcado czarista, hipótese que se dissolvia quando a sequência lógica do olhar do visitante procurava algum nobiliárquico brasão de família e só encontrava as paredes do casarão calcinadas pelo tédio das existências muradas pela bestialidade e concupiscência.
         Daí em diante, como por uma espécie de concessão à dureza paulatina a que somos promovidos, a providência vai nos ensinando sobre todo tipo de excrescências por fora da casca rompida, e se desfaz rapidamente nossa capacidade de asco. A segunda vez eu nem estava a serviço, atendendo ao pedido distraído de um oficial meu conhecido com o qual alimentava o ocioso hábito de discutir questões religiosas vernaculares como a carnalidade de Cristo ou a virgindade de Maria, e lá fui eu assistir a uma ocorrência de suicídio. O corpo estava convictamente pendurado em uma trave de madeira, as pernas estendidas até o chão com uma prontidão que em vida não tiveram diante as mazelas do trabalho escravo na fazenda, como se a morte exigisse aquela disciplina marcial em agradecimento por tamanho alívio alcançado. A rósea luz do sol poente espraiava-se por entre as calmas folhagens das árvores em torno, e o pequeno telhado da cisterna resguardava o corpo de toda comoção alheia abraçando-o com uma indiferença que conferia à cena algo de uma serenidade enlouquecida. O oficial me narrava sobre os efeitos fisiológicos do enforcamento, apontando do alto de sua estatura rapina o azul dos músculos do pescoço tentando enodar a corda; observava o rosto pendido em um surrealístico ângulo de 45 graus com uma deliciada curiosidade infantil que lembrava um desenho antigo do Sherlock Holmes, e falava com uma mansidão que estava a um passo do canto, técnica que adivinhei ter sido desenvolvida para exercer suas pretensões de pastor de uma igreja assembleiana.
                 Essas coisas na verdade não chegavam a me tocar, senão eram uma espécie de nova alegria da minha estendida experiência cuja insinuação de desmazelo moral não era suficiente para me levar a analisa-las com seriedade. O que tinha eu a ver com incestos e com impossibilidades tais de suportar o sofrimento a ponto da opção se voltar voluntariamente para a não existência como única redenção requerida? Eu não era insensível, era antes o oposto disso. O olhar da menina atocaiada na cozinha me despertava nostalgias de justiça que me levava a ceder a um dos prazeres contra os quais eu me mantinha afastado, que era a tentativa de esquecimento pelo álcool, embora eu bebesse sozinho em minha casa e caindo muitas vezes no batismo renovado toda madrugada na poça do meu próprio vômito

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Acordando no bairro árabe



O sr. Omeno Flibas, na manhã em que faltavam poucos dias para completar suas sete décadas e meia de existência por entre os eventos dessa terra, acordou no pequeno quarto que alugava no bairro árabe da cidade com a opressiva certeza de que era um escravo da verdade. Acordava sempre uma hora, ou mesmo duas horas antes que o horário programado a despertar no relógio sobre a escrivaninha ao lado da cama, e ficava em um pasmo mudo olhando as sombras que ora e outra flanavam através das intrujonas luzes eventuais que vinham de fora, produzidas por faróis de carros solitários ou por algum fogo-fátuo indefinido de alguma vida aleatória que passava por debaixo de suas janelas. Era um quarto pequeno em que cabiam apenas sua cama de solteiro, a escrivaninha, um armário de duas portas (que lhe lembrava com certa nostalgia a desprovidão aventureira dos seus distantes anos antes do casamento), e as cortinas duplas que atendiam à refratária sutileza cinematográfica das duas janelas instaladas em dois ângulos mortos de maneira em que quase eram perpendiculares em relação uma à outra. Aquelas janelas anômalas o cativaram de imediato quando seu filho o levou para analisar o quarto; havia algo nelas que despertara uma primordial e já muito esquecida fantasia bizantina, reforçada pelo charme fugidio de que aquele lhe fora anunciado como sendo o bairro árabe, o que fizera aflorar em seus sentidos todas as flagrâncias de um reino desaparecido de Averrós e becos mercantis atulhados de cestos e figuras de turbantes pintados em amarelo oleáceo que sua imaginação solta de livreiro aposentado desenvolvera em questão de segundos. A luz das cinco horas da tarde do dia de inverno, há dois anos, irradiava uma áurea dourada de elmo anacrônico que afundava a cabeça de seu filho em uma sombra despersonalizada na pose imóvel em que ficara olhando as reações de apresentação do cômodo ao pai, se espalhou por aqueles dois retângulos verticais alojados nas paredes calcinadas e enchera-lhe os olhos de uma pureza argêntea de recolhimento. Seu filho_ o rapagão moreno que era uma cordoalha de músculos e disciplina que lhe era cada vez mais estranho ter que se acostumar_, emitiu um ar de descrédito, os olhos severos escrutando por sobre o uniforme verde se o velho pai agora sucumbia a algum sinal demencial de humor farsesco, e a vontade do sr. Flibas, recompondo a lucidez de sua mente posta irritantemente posta em suspeição pelo advento organizado dos mais jovens, pensou em dizer: eu finjo que reconheço meu filho nessa figura ridícula de militar descerebrado em que você se tornou, se você continuar fingindo que reconhece o homem que tentou te incutir alguma liberdade de pensamento nesse velho que olha com um piedoso olhar infantil duas janelas em uma parede branca. Mas o sr. Flibas apenas dissera que ficaria com o quarto, se a locatária o aceitasse. Sabia muito bem que se pusesse a falar sobre túnicas, contas marroquinas e o cheiro de especiarias, tais coisas aumentariam ainda mais o desamparo em que ficavam as pessoas que conviviam com ele depois que se tornara mais contemplativo e pedantemente mais sensível. Por ora, calava-se, servindo-se da vantagem da velhice em impor sua decisão com um silêncio que não aceitava confrontos.
      De maneiras que ali estava, e ali acordava todas as noites quando todo o bairro árabe ainda dormia, embora as circunstâncias dessa íntima fantasia fossem desmentidas pela rede de múltiplos sons das atividades humanas que lhe chegavam pelas janelas. Seus ouvidos sempre foram o que tinha de melhor no aparato infiel de mecanismos corporais, embora naquela hora em que o mundo renascia das trevas a sensação de desbaratamento não lhe possibilitasse saber o que era real e o que eram pequenas alucinações sonoras: o escarro profundo do velho padeiro uma esquina abaixo era algo que estava autorizado a admitir a existência, ou os primeiros carros cujos pneus macios ralhavam em geometrias de meia lua o chão de pedras, mas as guinadas rapaces das bicicletas cujos sons lhe faziam imaginar jinriquixás ou carroções de bois eram coisas das quais ele procurava guardar para si afim de não aumentar com sua própria crítica o grupo de pessoas que tinham sua demência natural como evento incontestável. Era uma época de sua vida e uma organização cênica de um velho senhor insone de olhos esbugalhados de orfandade na cama que requeria a tão comum mea culpa de arrependimentos passados, e ele via claramente nos rostos das pessoas que elas tinham esse rito de passagem tardio como algo inegável que ele tinha que oferecer para elas. O tom de voz artificialmente amaneirado de seu filho demonstrava isso; e as tantas visitas incomuns que Anna, sua filha, passara a lhe fazer, também revelavam a mesma preocupação em dizer que eles não tinham nenhuma lembrança traumática, faziam um esforço verdadeiramente piedoso para aliviar a possível carga de reavaliação de si mesmo como mal pai que pudesse ter. A única pessoa que se conservava dura com ele, em sua demonstração constante do quanto suportara de vida para dispensar gestos retóricos e a estupidez de atos sociais vazios, era sua locatária, a senhora Dália, e ele se sentia profundamente grato por isso, pelos silêncios dela em que se reafirmava que nada havia, enfim, para o remorso. Era um grande engano, porém, de seus filhos: ele não se arrependia de nada; se o câncer fosse pensamentos represados, o lodo de sentimentos retraídos, ele estava imune para sempre. Mesmo o pleno reconhecimento dessa qualidade não o incomodava com o diabolismo que vinha nesses grandes gestos reclusos de egoísmo intuído. Ele sempre tivera, junto à audição fenomenal (certa vez, ouviu Anna engasgada com um pedaço de maçã da papinha, quando ela tinha três anos, cinco metros de distância entre a sala e a cozinha), uma capacidade de se auto localizar no julgamento alheio. Sua figurinha miúda, magra, erraticamente encontrando a cada passo contido sua postura de gentleman médio oriental com insinuante sabedoria angariada por alguma resposta a uma opressão histórica, algum advento político repressivo, dava às pessoas a certeza de uma fragilidade que ele não reconhecia. Seu rosto severo, que poderia ser fruto de uma íntima vaidade a procura que fazia diante um espelho pela raiz genealógica de tantos feixes étnicos possíveis, servia a que essa convalescença fosse coroada com uma reserva intelectual contemplativa, que seus filhos temiam ver nela algum traço esperado de um derradeiro desespero. Não tinham pelo que se preocupar, o sr. Flibas pensava, com um sorriso debaixo dos lençóis, não era a cara de um suicida. Ele jamais se enfileiraria entre os que a incompatibilidade com a vida gerara um distúrbio fisiológico severo nas taxas hormonais da permanência. Ele sempre conservara sua quantidade residual de leviandade. Olhando as janelas duplas de seu refúgio acolhedor contra o qual parecia enfim que nenhuma aleatoriedade do caos que reinava por sobre tudo se interessava em vir invadir, ele se deixava saber que sua única vantagem era o pouco tempo que lhe restava. Não que o caos não pudesse mais lhe incomodar, mas sua estimativa etária era minúscula para que julgasse possível uma dessincronia de frequências. Não poderia ter mais que dez anos ainda pela frente, na melhor das expectativas, e mesmo essas pareciam espantosas, arrazoadas. Queria muito a vida, em suas aparições mais puras que sobreviviam surpreendente e com inexorável potência por sob a urbanidade massiva a que tinha se transformado o dia, coisas importantes enxergadas como erraticamente ternas pelos que não tinham tanta carga de vida nas costas, como a suavidade da pronúncia de bairro árabe, como o sonho acordado de que lá fora existem carroções de bois, ou como a melodia silenciosa das janelas do quarto. Seu maior prazer, afora esses debates madrugadores com um toque de masoquismo, era caminhar; dava longas caminhadas pela cidade e por tudo que conseguia alcançar como sendo a não-cidade, e agradecia pela providência se mostrar suave pelo tanto ternura sensorial, odores, sons, riscos de presenças irracionais batendo asas pelo ar, silhuetas e marcas de expressão sobre as quais seus olhos pairavam e sua consciência depurativa o alertava contra os riscos sempre pueris de ser mal-entendido. 
           Era assim o despertar do sr. Omeno Flibas. Um ritual de um velho, com seu merecimento de relevância, mas que para os outros se tratava de assunto encerrado pelo diagnóstico de neurastenia e senilidade. Mas não tinha muito o que reclamar, baseado em seu histórico pessoal. Em nenhum momento de sua vida percebia a concessão de algo tão próximo à total liberdade quanto esses anos da velhice. Após o AVC, como em uma fábula contada sabe-se lá para o benefício moral de quem, notou que realmente angariara um benefício. Passara noites insones avaliando isso. Comparara essa degradação a tantas outras feridas de sua longa vida, e nenhuma se comparava com aquilo. Lembrou das convalescenças a que sua infância frágil o relegara, em uma época em que a vida em si era bem mais lenta ainda que não menos letal, e nem esse langor silencioso de cortinas imóveis e poeira se ombreava com sua derradeira derrocada. Mais ainda que na infância_ ou nas febres indeterminadas que lhe abatiam sem aviso no casamento, em que Mona lhe media a temperatura e lhe preparava infusões de ervas com mel que inebriavam seu incorrigível coração complacente_, na doença da velhice ele tivera todos os mimos da salvaguarda exagerada. Ou ao menos parecia exagerada para sua autocrítica retumbante e inquieta. Não podia negar, as pessoas que se preocupavam em diferentes graus e atendendo a diferentes burocracias filiais com ele, o trataram com o mais elevado enlevo. Se limitasse a compreensão da ocultada natureza humana a isso, de o quanto havia de benevolência real por debaixo da anestesia dos atos condicionados, já teria nisso uma lição. Mas havia bem mais a confrontar suas ideias sobre a distração e a maldade estática que imperam no mundo o forçando a ir além da zona de conforto do notoriamente aceito: havia a generosidade oferecida por pessoas que, apesar do parentesco ou da proximidade reativa, em nada tinham a obrigação de gastarem suas existências já atulhadas de ricos sofrimentos com ele. Não sabia até hoje quanto tempo ficara totalmente incapacitado; evitava o confronto direto com essas questões, e eles eram comedidos em não tocarem no assunto. Imaginava que fora bem mais tempo que suas íntimas suspeitas contabilizavam, e sempre que pensava nisso encolhia diante sua imensa nudez. Lembrava da filha o escorando nos ombros e apoiando com sua mão a mão do pai pela parede, enquanto descia as escadas. Lembrava o filho lendo os jornais à beira da sua cama, com sua voz forte e monocórdia, e o quanto o vazio reverberante dela o enchia de um estranho prazer. Pouco se atentava às notícias, deixando-se embalar pelo eco daquele muro de disciplina que exsudava poder. Lembrava como aquela disposição abnegada do filho acionava os neurônios para o retorno da funcionalidade de seu cérebro, as especulações que renasciam quando pensava sobre o por que aquela força soberba, aquela espiritualidade capaz dos mais elevados sacrifícios, era destinado apenas ao Estado. Se era essa a forma que seu filho encontrara ele mesmo para aquietar toda uma rede de angústias espirituais, em que ele estaria atrás da incompetência de seu pai de 70 anos na mesma procura. Por que um arrebatamento doado a uma instância pragmática como o Estado seria menos efetiva do que 70 anos dedicados à abstração pura e sem objetivos concretos? Eram esses seus pensamentos, levantados com uma timidez cambiante e combativa do interior de um encéfalo em vias de cicatrização após uma hemorragia provocada pelo rompimento de seus vasos.

sábado, 8 de julho de 2017

Fima, de Amós Oz






Fima é um livro escrito lentamente, quase revelando um certo despropósito e despretensão. Casa com a confissão de Oz de que ele trabalha com a escrita disciplinadamente, todas as madrugadas em seu escritório isolado no frio do deserto. Aliás, é isso que Fima mais tem: frio e isolamento. Aqui neste romance Oz consolida sua cidade literária, uma Jerusalém invernal, cercada por muros, com uma geografia urbana caótica e inóspita, mas mesmo assim tornada acolhedora. A originalidade de Oz é receber influências sem se deixar sucumbir por elas, transformando-as em uma assinatura serena e totalmente intimista: por isso, as fontes em que bebe para compor essa obra, que a mim parecem ser Kafka e o romance-ensaio no estilo de O planeta do sr. Sammler, transparecem mas não são afrontosas. O personagem homônimo dessa tradução brasileira anda pela cidade à noite, é um solitário que escolheu para si o fracasso e a segregação, e tem uma vida cerebral acidentada entre a intensidade e a sornice. Não há grandes começos em Oz, como se pode encontrar em excesso no estilo suntuoso de Bellow, e o símbolo que do cotidiano de uma região em constante guerra entre dois povos insolventes que em Kafka atingiria as instâncias de interpretação psicológicas-religiosas é contido pelo autor em sua primeira instância. Mas isso não quer dizer que sua prosa seja menos bela e sua mensagem menos profunda. Oz é um escritor para se conhecer tarde_ pelo menos para mim conhecê-lo depois de uma boa bagagem de suas possíveis influências me parece vantajoso. Oz é o escritor certo para o leitor extenuado, exausto de querer acompanhar um cânone antigo e defasado de gigantes. Por isso ler Fima foi um prazer tão genuíno, aumentado ainda mais pelas suas fraquezas e improvisos evidentes. Há uma inexplicável atração intelectual pelo desmazelo doméstico do personagem, por sua degradação adulta de se parecer com um meninão desamparado que começa a engordar; há a atmosfera gélida sempre cativante da Jerusalém inventada, um símile de Londres dickensiana e Paris dupiniana, em que se repete a cara tradição literária do peripatetismo por ruas estreitas e escuras. Não se pode dizer que se tem reservas quanto a um livro tão idiossincrático, mas a resolução que Oz arranjou para amortecer a infelicidade do herói nas páginas finais perde o compasso em sua aproximação involuntária com os enredos de novelas televisivas. Mas tudo o mais é entorpecidamente primoroso.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Olavo de Carvalho sem demônios



Descobri ontem em uma página privada do Facebook que o Olavo de Carvalho, o filósofo tiririca que só existe para uma turma seleta de eugenistas nacionais, disse sabe-se lá onde que Paulo Bezerra, o conceituado tradutor do russo de obras de Dostoiévski, fez de sua tradução de Os demônios uma plataforma para mensagens subliminares de doutrinação esquerdista.
Na verdade, alguém que se diz pesquisador, e óbvio seguidor do astrólogo brasileiro, fez um post dizendo que ia escrever sobre Os demônios, e perguntava aos inscritos na página se a tradução de Bezerra era confiável, dado seu "notório" (nas palavras dele) esquerdismo. Isso é para rir. Isso mostra o quanto a indigência mental é uma constância entre os brasileiros médios.
Penso o que levou Olavo de Carvalho a falar tal coisa, e concluo que o astrólogo nunca leu Dostoiévski. Nunca leu mas, como todo mundo, sabe que o russo escreveu livros intitulados "Gente Pobre", e "Humilhados e Ofendidos", logo, para o cultor das flagrantes superfícies, Dostoiévski deve ter sido esquerdista, comunista, adepto das teorias marxinianas. Ninguém que não o fosse daria tais títulos a seus livros. E, juntando os pontos, se Paulo Bezerra foi chamado para traduzir um autor comunista, logo ele aproveitou disso para perverter ainda mais o texto e fazer dele um amuleto hipnótico irresistível para converter o máximo de pessoas possíveis à causa. É o que se poderia chamar de Literatura com Partido.
Sei que Olavo é o rei das sandices, que fala muita abobrinha. Mas essa avaliação infantil sobre Bezerra mostra que ele desconhece por completo "Os demônios". Este romance é o ataque mais devastador contra a esquerda revolucionária, tanto que até hoje assusta o poder premonitório que ele tem, lançado 35 anos antes da revolução russa. Seria impossível para qualquer um fazer deste livro uma propaganda comunista. Mesmo que Bezerra fosse o professor Xavier e tivesse um cérebro mutante turbinado, seria impraticável que ele subvertesse de maneira tão extrema uma obra com fins tão evidentes. Seria o mesmo que um tradutor radicalmente machista e misógino transformasse o "Queer", o brilhante romance de William Burroughs, a obra mais homossexual que eu conheço, em um panfleto do macho supremo.
Dostoiévski, sob vários aspectos, poderia ser enquadrado nas frentes de um pensador de direita: em seus textos no Diário de um Escritor, ele defende a pena de morte e critica a abolição dos escravos. Mas vamos lá: retornemos ao acadêmico que pretende escrever sobre Os demônios, mas que pergunta de maneira tão pueril sobre uma tolice dessas. Imagine se isso for um demonstrativo do que está sendo produzido nas faculdades brasileiras. Gente que não lê, que acredita em conspirações sem pé nem cabeça, e que escuta nulidades cômicas como Olavo de Carvalho.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Na pior em Paris e Londres, de George Orwell


Esse livro me foi entregue ontem e eu o li inteiro, deitado na biblioteca (ouvindo Soft Machine). Uma obra imprescindível, visceral, (bastante engraçada, como não deveria de deixar de ser), e muito humana e instrutiva. O relato dos anos de miséria absoluta em que Orwell viveu em Paris e Londres, desempregado ou submetido a sub-empregos devastadores. Claro que me passou pela cabeça como seria o impacto de um livro destes se o brasileiro médio o lesse (e nessa categoria coloco várias pessoas que se acham bem colocadas na sociedade, doutores, professores, funcionários públicos, mas que purgam no mais lancinante atraso). Quem entre essa espécie iludida continuaria a defender as reformas trabalhistas e o resto da destruição de tudo que está a acontecer no Brasil hoje. Quem entre esses cegos lastimáveis, vítimas de si mesmos, continuariam a ter essa visão rasteira sobre manifestações socais e sobre "vandalismos" de se quebrar vitrines de bancos ou janelas de prédio públicos, após ler essa obra-prima de Orwell. Orwell consegue um emprego de auxiliar do auxiliar de garçom em Paris. Trabalha 16 horas por dia, de segunda a segunda. Ganha menos do que seria possível para sobreviver. Trabalha em porões sem ventilação, sob uma temperatura que vai de 40 a 55 graus Celsius (está tudo lá, com amplos detalhes, basta ler), entre outros homens mantidos em tal sub-humanidade que se xingam, são acometidos por várias doenças, levam socos de seus patrões, são chutados para o lixo diariamente pela escala quase infinita de sub-chefes. Mesmo depois de sair dessa situação e conseguir, anos depois, uma certa estabilidade financeira, esses anos cobraram caro do autor: Orwell morreu jovem, aos 47 anos. Na época_ anos 1930_ , a França não tinha salário mínimo e nenhuma espécie de seguridade trabalhista, tanto que nos relatos do livro fica claro que os empregados eram descartáveis, substituídos pelos que vinham na sequência na fila dos famélicos do lado de fora. Que bom seria um pouco só de esclarecimento neste país angustiantemente assolado pela doença dos que se acham melhores do que os outros. Somos todos pobres, todos nós brasileiros. (Eu sei, eu fico com um grande peso de consciência de falar de literatura nesta hora em que se cobram ações imediatas e contundentes. Tudo que não seja a denúncia indignada contra a dilapidação assassina que fazem contra o Brasil, é frivolidade.)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Matheus



Eu me forço a acreditar que a internet dá voz ao estúpido que existe dentro de cada um. Os comentários à matéria no portal de notícias da Globo sobre a recuperação do jovem Matheus da Silva, que sofreu uma tentativa de assassinato por parte de um policial militar nas manifestações do último dia 28, em Goiânia, são assustadores_ mais, são desmotivadores. Leva-se a pensar que o Brasil merece mesmo Bolsonaro. Há uma legião de pobres coitados esbravejando violência e rancor contra Matheus e defendendo o policial. O nível de humor dessas pessoas é a de dizer que a PM deveria reforçar o cassetete para que nas próximas vezes ele não se parta. São seres mais ainda do que simplesmente destituídos de senso crítico, humanismo e o mínimo de independência mental para conseguirem pensar por si mesmos, mas com sérias doenças espirituais. Eles mesmos são as vítimas do que vociferam, e não sabem disso. O Matheus é um desses indivíduos com coragem, o que o coloca em um patamar de segurança mais elevado do que dessas pessoas; já elas, atrás da inanição de seus Facebooks, atolados em suas condições de cidadãos beirando a miséria em sub-empregos e morando em cidades terríveis, em um país que está por agravar ainda mais a pobreza de suas vidas, são repetidores de clichês, na acepção perfeita do retrato que Hannah Arendt fez de Adolf Eichmann: cidadãos "de bem", sem cérebros e sem corações, sem almas e sem voz. Apenas comandados. Eles são bem mais indefesos do que o jovem que está em coma induzido, com parte do crânio passando por uma série de cirurgias reconstrutoras. Mas aqui uma lembrança: 4 anos atrás um primo meu caiu da ponte de um viaduto, na mesma cidade onde Matheus sofreu sua tentativa de assassinato. Por questões de superfaturamento, a paliçada da ponte, recentemente construída, cedeu quando ele se escorou nela, e ele despencou 10 metros até a via onde os carros passavam. Um carro parou, entre tantos que desviaram do corpo. Desse carro, saiu um casal de jovens, e o que eles fizeram foi maravilhoso. A moça fez respiração boca-a-boca em meu primo, sugando e cuspindo o sangue que obstruía a faringe dele, e o rapaz fez os outros procedimentos para imobilizá-lo em uma posição que fosse a minima lesiva possível para não agravar ainda mais o quadro de tantos ossos partidos em que estava meu primo. (Nenhum deles é médico; meu primo é negro: isso faz uma diferença ainda maior no caso.) A ambulância chegou e eles acompanharam meu primo até o hospital público. Uma médica que estava saindo do plantão e que ia pegar um avião para participar do aniversário da filha no dia seguinte no Chile, adiou a viagem e, por ser a melhor cirurgiã da equipe, realizou a cirurgia de 6 horas para tentar fazer com que o Gustavo, meu primo, sobrevivesse. Ele sobreviveu, após 87 (87!!!) cirurgias, inclusive a de reconstrução do crânio (o que me lembra Matheus). É para essa lembrança que eu vou quando eu vejo bestialidades como essa do Portal: para essas pessoas iluminadas, pessoas comuns e iluminadas. Matheus é um rapaz lindo, culto, esclarecido, o que me faz pensar que esses detalhes aticem ainda mais o rancor desses homens e mulheres de palha, "com o elmo cheio de nada". Matheus já não corre risco de morte. Eu não sinto pena de sua mãe_ sinto o enorme pesar porque, eu sendo pai, sei que é a pior dor indizível e inimaginável. Sentiria pena da mãe do policial que fez isso a Matheus. Eu sempre tive a certeza de que é melhor, muito melhor, estar na extremidade que faz o cassetete quebrar, do que na outra ponta que o segura. Matheus é um orgulho; os jovens que socorreram meu primo são meus orgulhos; a médica adiou tudo para salvá-lo é meu orgulho. Nesses seres humanos é que eu me firmo.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fragmento


Minha mãe começava a passar mal pela manhã e assim seguia pelo dia todo.  Tinha ânsias de vômito, tonturas, fraquezas debilitantes. Se dava dois de seus passinhos do quarto à cozinha, logo era acometida por uma bambeza das pernas que a fazia se apoiar nas paredes e procurar o assento mais perto. Nem precisa falar a quantas andava o seu já dilacerado humor por causa disso. Eu evitava entrar em seu campo visual, o que me causava certa aflição por no final me tornar evidente a ponto de poder fazer com que me chamasse aos corretivos, mas logo vi que ela sofria de tal maneira que me desconsiderava por completo.
       Vivi esse período em um estado de alívio. Sei que é repreensivo dizer isso e na época talvez uma comichão moral me fizesse deter o olhar por certo tempo, antes que a felicidade pela liberdade suscitada pela supressão de seu julgamento me atinasse a não perder tempo com ruminações ridículas. Ela estava tão prostrada pelo sofrimento, tão removida de sua normalidade, que a coisa não lhe cedia espaço sequer para se espantar; via-se que sua mente arguta, treinada a ver entre as complexidades mais intranscedentes do trivialesco cotidiano, agora estava direcionada por inteiro em tentar entender aquela nova configuração de seu organismo_ que para ela poder-se-ia usar talvez o mesmo sentido que se usa para “alma”, embora não lhe sobrasse tempo nesses esquemas de excesso de realismo para que ela adquirisse esses entendimentos esotéricos.
        Havia algo mais que a irritava, além da dor em si. Algo que eu não ousava expressar em pensamentos, mas cuja intuição me oferecia meios de entendimento desconfortavelmente amplos para suspeitar o que era. Isso consistia, falando a grosso modo, em que ela se sentia ultrajada em seu direito de ser deixada em paz; ela sabia que estava no núcleo de uma família que não se poupava de especular entre si os detalhes sobre o sofrimento dos outros integrantes cujo alvo da má fortuna os faziam humilhados e enfraquecidos diante a maledicência. Minha mãe não era uma dessas faladeiras, se pararmos para analisar bem: talvez porque fosse ocupada demais, não porque tivesse um coração melhor que lhe incutisse uma moral inédita entre os seus consanguíneos; mas simplesmente porque suas labutas eram sérias demais, concentradas, demasiadamente humanas, para que ela tivesse tempo para alimentar tal luxo de leviandade. Mas, pelo contrário dela, os outros integrantes do apartamento se deixavam levar por qualquer coisa pela paixão dos estudos sobre a vida alheia. Eu os ouvia sempre conversando fervorosamente sobre vários personagens do prédio que eu mesmo sequer conhecia, gente que aparecia em suas historietas e em seus julgamentos pormenorizados e de tom de voz acautelado que me fazia pensar no quanto era infinito a babelia daqueles blocos de concreto com janelas e escadas onde morávamos. Uma pessoa podia preencher toda sua vida com apenas essas ocupações e já teria um álibi espiritual suficiente para dizer de si mesma que levou uma existência produtiva, na qual fora usado com parcimônia o poder das faculdades cerebrais lhes dadas pela divina providência. Eu ficava pensando no quanto eu era prisioneiro de meu recolhimento mesquinho a ponto de me passar despercebido tantas entidades interessantes, tantas figuras carregadas de fulgurantes idiossincrasias, de maravilhosos pecadilhos e deliciosos estupores de estupidez e ódio. Eu ficava atocaiado em meu canto na cozinha ou na sala, fazendo-me de criança diligentemente ocupada com meu mundo apartado da realidade e idiotizado, às vezes com minha bola giroscópica na mão ou com meus indiozinhos americanos, mas o que ocupava toda minha atenção rigorosa não eram as imagens que vinham da bola nem das novas aventuras do índio, e sim aquelas conversas todas que aconteciam entre meus tios e tias e avó pentecostal, sobre a mulher do porteiro que estava se deitando com o Fancir, o faxineiro do bloco B, sobre a crise de cirrose do barbeiro cartaginês em que alguém havia tomado conhecimento que no laudo médico havia o prazo de apenas seis meses de vida; sobre a portuguesa do 208 que recebia moleques quando seu marido viajava para as entregas em seu caminhão, e por aí vai. Eles não se importavam comigo, sequer pareciam ter a menor ciência de que eu estivesse por perto, de modos que eu aos poucos me aproximava mais, ficava sentado aos pés deles no tapete, e no final já não precisava usar das desculpas da bola e do índio. Ouvia-os na cara, deixando escapar exclamações de surpresa e espanto, mas que nem meu tio Sólon, nem meu Tio Jétson e nem as tias satélites e a avó pentecostal tinham o potencial minimalista de captar uma filigrana daquela minha presença. Eu era invisível para eles, o que muito me satisfazia.
       Mas voltemos a falar sobre minha mãezinha. Foi numa dessas sessões de estudos sobre a devassidão alheia que me veio pela primeira vez a palavra que atormentaria minhas faculdades de julgamento. Foi numa delas que minha tia Tércia proferiu pela primeira vez a palavra “enjoo”. Claro que eu não a ouvia pela primeira, primeiríssima vez; já a tinha escutado em inúmeras outras ocasiões, inclusive dirigida contra a minha pessoa. Mas agora o tom de voz em que ela era empregada é que fazia toda a diferença. Minhas tias tinham esse estranho talento, sobre o qual um dia eu terei que gastar bem mais que uma página para tentar cercear, anatomizar e procurar a fundo a razão de que simples palavras em suas bocas ganhassem tamanha dimensão com tantas evocações sufocantes de significado. Talvez porque elas fossem tão medianamente previsíveis, seus comportamentos pudessem ser deduzidos sem qualquer probabilidade de surpresa de uma tabela normativa de comportamento, em que a escala gradual partisse da solenidade à mesa até a externalização de uma visão de mundo absolutamente insossa e desinteressante, que fizesse com que tais palavras, ditas em suas vozes monocórdias e atonais, soassem inesperadamente oraculares. Era tão assustador para mim como achar em uma barriga de um sapo uma folhinha de papel não digerida em que viesse escrita em uma letra provençal uma lista de compra. A banalidade era o cerne da questão, mas a disparidade em que ela repousava em seu núcleo anacrônico a fazia aterrorizante.
            Por isso eu não gostava que elas falassem sobre mim quando eu estivesse doente. Coisas como “febre” ou “dor” na boca delas ia além do que a gramática clássica dessas palavras guardava em suas centenas de anos de significados consolidados, e elas pronunciarem esses diagnósticos me fazia pensar que eu estava próximo não só da morte, mas de uma forma de morte recém inventada para a qual o horrível carecia de definição.
           Dessa maneira, a palavra “enjoo” na boca delas, empregada para se referir ao estágio da minha mãe, trazia algo de fantasticamente melífluo e veladamente insultante. Nessas horas em que elas pronunciavam essa palavra, pela primeira vez, como em um sinal concordante que estivesse à superfície da descansada indiferença nutrida quanto a mim, todos pareciam sentir um frêmito de pesar e por um brevíssimo segundo voltavam suas cabeças e dedicavam-me um olhar apressado, o que aumentava o enigma. Eu, que não era bobo, apesar de há muito ter superado o artifício de fingir que brincava para não provocar suspeitas, conservava a bola e o índio nas mãos e, imediatamente, mas sem que ficasse evidente a descontinuidade dos atos, os remoía em murmúrios íntimos e concentradamente apartados da realidade, como se assim fosse eternamente e que em qualquer ocasião estava ali para comprovar que o menino não fazia parte desse mundinho de assuntos sérios e diligentes em que eles viviam. Mas isso já era algo tão aceito para eles_ o que deveria me encher de orgulho por ser tão convincente_, que eles só me lançavam aquela fagulha de nota sobre a minha existência não para me pouparem de ter minha ingenuidade ferida, mas como se para sublinharem com maior ênfase o teor do que estava sendo omitido.